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Órfãos da guerra, órfãos na guerra

A guerra é, por si só, uma tragédia tão completa, que é difícil enxergar os enredos dos pequenos – mas nem por isso menores – dramas que, irreversíveis, a fazem ser definitivamente real .

O maior horror da guerra não está nos campos de batalha. Não está em matar soldados, mas em assassinar os filhos que eles são e os pais que poderiam vir a ser. Em dizimar – física e emocionalmente – milhões de famílias.

Há algum tempo atrás, quando visitei uma pequena cidade no interior da Inglaterra chamada East Dean, minha atenção se voltou para uma placa fixada na fachada de uma casa :

Numa tradução livre, a placa diz:

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – EVACUAÇÃO

Essa placa relembra a data de 01 de setembro de 1939, quando crianças e professores da escola de ST. Albion em Rotherhithe, uma área devastada pelo bombardeio nas docas de Londres, foram evacuados para East Dean, Friston e Willingdon.

Aqui eles foram afetuosamente acolhidos por residentes e frequentaram essa antiga escola e outros colégios da região para continuar seus estudos até o dia 23 de junho de 1940 quando foram, mais uma vez, evacuados, a maioria sendo transferida para St. Clears, S. Wales, onde permaneceram até o final da guerra na Europa.

60 anos depois, em 2000, algumas dessas crianças que sobreviveram lembram, com gratidão e felizes lembranças, a proteção e a bondade de seus pais adotivos e professores em East Dean, Friston e Willingdon,

que são especialmente lembrados por:

Peter Todd- que viveu com o Sr. Stickland em Birling Manor e com a Srta. Stickland em East Dean.
Ted Rouse – que viveu com o Sr. e a Sra. Nash em Friston
Maisie Stothard – que viveu com o Sr. e a Sra. G. Taylor em East Dean
George Walker – que viveu com o Sr. e a Sra. Foreman em Willingdon

Julho de 2000

Foi assim que tive contato, pela primeira vez, com uma dimensão da Segunda Guerra Mundial que desconhecia. E que me tocou de forma especial.

Durante a Guerra, o governo inglês organizou a retirada das crianças das maiores cidades do país. Elas deixaram suas casas e foram entregues a outras famílias, muitas desconhecidas, em pequenas cidades do interior, onde estariam a salvo dos ataques mais violentos. Algumas seguiram para outros países.

Cerca de um milhão de crianças foram transferidas, muitas acompanhadas por seus professores, apenas na primeira semana da Guerra. As famílias que as acolhiam recebiam uma pequena ajuda financeira do governo.

A ação tinha o objetivo de salvar vidas, mas é inevitável pensar que buscava também proteger o futuro da Inglaterra.

Pais e mães não eram obrigados a enviar seus filhos para longe, mas eram fortemente estimulados pelo governo a fazê-lo.
Veja algumas das propagandas da época:

 

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De todas, acho essa, que tentava convencer as mães a manterem os filhos longe de casa, a mais dolorosa. Nela, o desejo da mãe de ter os filhos perto de si, é confundido com o desejo de Hitler. Atender ao coração, é atender ao inimigo.

 

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Penso nesse fio invisível que passou a tocar vidas até então desconectadas. Penso nos pais e mães tendo que abrir mão de seus filhos e da onipotência que todos temos de achar que eles sempre estão mais seguros perto de nós. Penso nas famílias que os receberam. E no terror das crianças sendo levadas para lares desconhecidos por tempo indeterminado.

Eu conhecia a história dos órfãos da guerra. Não conhecia a dos órfãos na guerra.

Publicações trazem relatos diversos sobre esse tema. Houve experiências ruins, de crianças maltratadas. Mas também aquelas que se adaptaram de tal forma aos lares temporários que tiveram dificuldades quando voltaram para casa. Há registros até mesmo de crianças maiores que, após o fim da Guerra, quiseram voltar a viver com os pais “adotivos”.

De qualquer forma, são milhões de vidas que foram brutalmente transformadas, aleatoriamente trançadas e entrelaçadas. Conflitos que não tiveram fim com o armistício.

São histórias silenciosas, escritas longe do barulho dos bombardeios, que confirmam que as cicatrizes deixadas pela guerra não são apenas físicas. Que as perdas não se medem apenas pelos caixões.

Dizem que para tudo na vida há remédio, menos para a morte. Não é verdade.

Evacuação 1939-1945

7 pensamentos em “Órfãos da guerra, órfãos na guerra

  1. O blog está muito bom mesmo.
    Esse post da guerra é maravilhoso. Quando corri os olhos, pensei que era grande. Mas quando comecei a ler… li em 1 min. Foi um presente pra mim. Obrigada.

  2. Andréa, parabéns pelo post. A Segunda Guerra possui histórias incríveis. Essa é um bom exemplo.
    Minha família é italiana e meu avô lutou na Segunda Guerra. Foi atingido na perna e preso em um campo de prisioneiros/concentração pelos alemães. Um cirurgião tratou dele como se fosse um companheiro alemão. Ele sobreviveu e posteriormente foi solto. Ingressou na carreira diplomática e foi transferido para o Brasil vindo para Minas Gerais.

    Ao ouvir suas histórias me apaixonei pela Segunda Guerra. Estive na Europa e visitei na Alemanha o campo de concentração de Dahal. No dia em que visitei o campo, acompanhei uma ação do governo alemão. Eles fizeram uma excursão com crianças para conhecerem a história do lugar. Perguntei ao guia qual o objetivo dessa ação. De maneira bem firme, ele me respondeu: “para que isso nunca mais se repita”.

    Obrigado por nos apresentar essa bela história que demonstra primeiro a ajuda e posteriormente o reconhecimento e agradecimento daqueles que viveram anos tão difíceis.

    • Roberto,
      você tem razão, a Segunda Guerra tem histórias impressionantes, como a que você relatou sobre a sua família. Esse é um tema que me interessa muito e quero voltar a falar sobre ele….

  3. Destinos interrompidos pela imbecilidade humana… a inocência perdida. E as histórias, com menos brutalidade ou em menor escala, continuam se repetindo atualmente… O desafio é fazer com que essas dores tocadas tão levemente pelo nosso olhar se transformem em aprendizado real. Lindo post!

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