Meu pai costumava rir dizendo que havia chegado a uma idade em que só andava na rua olhando para baixo: tinha medo de olhar para cima e São Pedro jogar a chave.
Durante anos, meu avô brincou conosco, dizendo que já havia escolhido o seu epitáfio: Aqui jaz, muito contra a sua vontade, Tancredo Neves.
MORTE
A morte costuma ser um tema tabu para muitas pessoas.
Não é para mim.
Talvez, por tê-la visto tantas vezes visitar pessoas tão próximas…
Aprendi a reconhecer o momento exato em que ela pousa sobre a face daquele que se vai. E sei que nesses momentos devemos ajudá-los a seguir em frente. Em paz.
“Não temas
Segue adiante
E não olhes para trás
Segura na mão de Deus
E vai…”.
Chegamos aqui sozinhos e partimos sozinhos. Não deve ser por acaso.
Me alcança e me paralisa o depois: a saudade, a tristeza da ausência, do incompleto, da impotência…
VIDA
Ao longo do tempo, cada um de nós tece as suas próprias certezas. E as mais valiosas não nascem nem da experiência nem da reflexão, mas de um outro tipo de conhecimento, intuitivo, ancestral…
Acredito que a vida não é só o que vivemos – embora isso já seja, às vezes, demasiado.
Acredito que exista mais esperando por cada um de nós.
CAMINHO
Há séculos, filósofos e escritores usam diferentes metáforas para transmitir a mesma certeza: de todas as viagens que empreendemos, a mais reveladora e a mais definitiva é a que nos leva para dentro de nós, ao encontro de nós mesmos. Ao reencontro com o que, no fundo, de alguma forma, já sabemos.
Sempre que vejo a imagem de um viajante, penso que na estrada que percorremos nessa vida, o coração deve ser o guia e o espírito, a luz que revela o caminho. A razão é apenas o cajado sobre o qual nos apoiamos. Não devemos nos apoiar nele mais do que o necessário.
MORTE
Precisei de ajuda para lidar com algumas das minhas perdas. Encontrei-a fundamentalmente nos livros, conhecendo vivências, crenças e convicções de outras pessoas.
Um texto me tocou quando o li pela primeira vez: a biografia da Dra. Elisabeth Kübler-Ross, uma médica que estudou diversas questões relacionadas com a morte. O livro se chama “A roda da vida: memórias do viver e do morrer”. A editora é a Sextante, da muito querida Regina Pereira.
Quem já precisou explicar a morte para uma criança sabe como é difícil. Veja a delicadeza desse trecho na introdução do livro:
“Quando acabamos de fazer tudo o que viemos fazer aqui na Terra, podemos sair de nosso corpo, que aprisiona nossa alma como um casulo aprisiona a futura borboleta. E, na hora certa, podemos deixa-lo para trás, e não sentimos mais dor, nem medo, nem preocupações. Estaremos livres como uma linda borboleta voltando para casa, para Deus…”. (Carta a uma criança com câncer).
DESTINO
Acredito também no destino. Não num destino tirano que já tomou todas as decisões e, sim, naquele que traçou as linhas gerais do desenho, mas deixa para cada um de nós a opção de terminar a gravura como queremos.
Gosto muito de frases. Especialmente de uma, cujo autor desconheço, e que diz: “O destino costuma nos alcançar mais depressa justamente nos atalhos que escolhemos para fugir dele.”
Comecei falando de morte, terminei falando de destino. Também não deve ter sido por acaso.






A Morte é o elefante branco no meio da sala da nossa sociedade contemporanea. Todo mundo sabe que ele está ali mas ninguem quer falar a respeito. Adorei o texto, Andrea, e fiquei curiosa com o livro. Um bj, Flavia
Mais um texto com um tema tão essencial… e tão emocionante!
Eu também convivi com a constante ameaça de perda de pessoas bem próximas desde muito jovem. Depois, ainda menina, convivi com a falta efetiva delas e de tantas outras mais… Talvez a inquietude da alma que as certezas diárias da existência finita da carne e da plenitude do espírito provocam, façam com que quem vive isso se torne uma pessoa mais sensível, menos apegada ao que não é coração. A morte para mim também sempre significou reencontro… exatamente por considerá-la uma experiência de renovação e jamais um fim. Reencontro de tudo o que tornou-se invisível aos olhos (não à alma) e reencontro de mim mesma, na minha mais completa essência… É pelo mesmo amor à vida (que o seu pai e avô sempre tiveram tão claramente, como você nos contou) e pela certeza nesse destino que não temo a morte também. Obrigada por esses seus textos tão cheios de emoção, que hoje, especialmente, me comoveram…
Por mais que acredite que a morte não é o fim, a cada perda um pedacinho de mim se foi. Aprendi a lidar com a saudade. Não dói, mas incomoda nos momentos em que só com aquela pessoa eu gostaria de dividir um sentimento. Por isso, ” vamos viver tudo que há pra viver”.
“A vida é a infância da nossa imortalidade.” (Goethe)
É dificil lidar com a perda. Que bom que pode ser menos penoso lidar com a morte.
Que Deus tenha reservado um lindo lugar a seu avó!
um filosofo desconhecido disse uma vez que, para morrer basta estar vivo, e que a única certeza da vida é a morte. A vida é uma viagem na qual o caminho é mais importante que o destino.
Muito bom texto, tema tenso tratado com leveza. Parabéns!
Temos um destino, mas também o livre arbítrio. A vida é frágil, num instante não estaremos mais aqui e isso assusta, com certeza. Acredito que quanto mais falarmos no assunto vida, mais a morte será calma.
Ótimo texto! Faz mesmo a gente refletir sobre a morte, vida e destino. Muitos tem medo da morte, eu já acredito no destino, acho que cada um já tem sua história escrita e sua hora pra tudo, quando tiver de ser, será.
Essa introdução é linda! Me fez ficar com vontade de ler o livro.
Parabéns pelo blog. Gostei muito msm. Em Minas, quando ouvimos falar de Andrea Neves, pensamos logo em alguém forte, que parece nem franziar a testa, que não chora, que não demostra sentimentos. Pois bem. O que vi aqui foi uma mulher sensível, Forte, cheia de vida e que compartilha das aflições que nós. Lindo texto. Eu adorava sua avó Risoleta.
Se hj eu te vir na rua, vou te dar um abraço. Antes pensaria em falar mal do seu irmão.
Desculpa.
A vida nos tira pessoas que para a gente e imortal ,mas o estágio da vida nos ensina que a história e para ser lembrada para o resto da vida.Saudades dos amigos Aécio Ferreira da Cunha e Antônio Caldeira.
“A Roda da Vida” é um livro muito bonito.Nos leva a muitas reflexões. Já li e reli. Muito bom!!