Eu ainda era muito jovem, quando descobri que Alice no País das Maravilhas não era um livro comum. Nem era um livro para crianças. Ou melhor, não era um livro apenas para crianças.
De lá pra cá, de uma forma ou de outra, o livro sempre esteve perto de mim. Nos últimos anos assumi o meu encantamento com a obra e, simbolicamente, entrei no Clube que reúne, no mundo todo, admiradores de Lewis Carrol e, em particular, de Alice.
Hoje, coleciono edições do livro – algumas em idiomas que não sei sequer ler -, visito sebos, e recolho, por onde viajo, leituras e releituras tidas como interpretações filosóficas ou psicanalíticas da obra. Mas nenhuma releitura se compara ao original.
O livro , escrito há quase 150 anos, vem despertando curiosidade desde então.
Veja a diferença de linguagem entre a primeira (1903 – Direção de Percy Stow e Cecil Hepworth) e a última (2010 – Direção de Tim Burton) filmagem de Alice.
Beatles
John Lennon disse, em entrevista à Playboy em 1981, que a letra de Lucy in the Sky with Diamonds, foi inspirada no livro. E a canção, I’m the Walrus, foi baseada no poema: The Walrus and the Carpenter de Alice no País do Espelho.
Cada um dos Beatles indicou algumas das pessoas que compõem a capa do álbum “Sgt. Pepper’s” de 1967. O rosto de Carroll está lá, por escolha de Lennon.
Diversas outras bandas se inspiraram no livro. Existe um blog que relaciona músicas ligadas à obra. Lá estão, entre outros, Pink Floyd, Jefferson Airplane, Aerosmith, Chick Corea e Avril Lavigne. Veja: http://migre.me/7GvJP
Escritores
Virginia Woolf disse que apenas Lewis Carrol nos mostrou o mundo de cabeça para baixo, como é visto por uma criança, e foi capaz de nos fazer rir como uma.
Jorge Luís Borges comentou trechos da obra.
Existe alguma coisa mágica no livro. Cada vez que eu leio uma página, sou alcançada por um sentido diferente. As ironias soam novas. É um livro para ser lido em fatias ao longo do tempo. Aos 6 anos a graça é uma. Aos sessenta, é outra. E melhor.
O meu passaporte para esse mundo oculto de Alice foi um texto de Paulo Mendes Campos chamado “Para Maria da Graça”. Já dei esse texto para diversos amigos em seus aniversários. Já o enviei para os filhos dos amigos, quando nasceram. Veja:
Para Maria da Graça
Paulo Mendes Campos
Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca.
Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha:
“Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”.
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu? “.
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namoradas, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhastes.
Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mais devagar, muito devagar. Quero dizer seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte: É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo.
E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
(Do livro “O Colunista do Morro”, 1965).





ISSO É MARAVILHOSO SOU FÃ DE CARTEIRINHA, E A MUITO NÃO VEJO OU LEIO ALGO TÃO PRAZEROSO.
Gostei tanto desse post que quero ler Alice de novo. Fiquei enlouquecida com essa história. Pesquei e descobri algumas observações do John Lennon sobre o livro.
É difícil encontar coisas interessantes em Blogs e gostei demais desse conteúdo.
Cris.
Andrea, a leitura do seu blog é um prazer. Uma saborosa combinação de assuntos, tratados com leveza, mas com opinião. Vou passar muito por aqui.
Parabéns,
Gustavo Krieger
Caro Gustavo,
Fiquei feliz de te ver por aqui….
Que bom que você gostou……..
Nossa !!!
Como é gratificante ler coisas tào lindas em uma manhã de sábado que quando acordei fiquei triste por não poder realizar o que tinha planejado.
Quando li Alice não tive a mesma sensibilidade. Irei ler novamente. Com outros olhos é claro.
Obrigada Andréa pela oportunidade de poder aprender um pouquinho mais das coisas belas da vida.
Parabéns pelo seu blog.
Beijos
Patricia Ribeiro Pfeilsticker
Eu tomei LSD ou esse post me fez viajar?
Acho que a versão do Tim Burton se aproxima até mais do estilo do disco Sgt. Peppers. Mesmo sendo de épocas, e contextos, diferentes, as imagens produzidas pelas letras das músicas, pelo som… se parece muito mais com as cores, os exageros e a viagem de Burton.
Penando em Lucy in the Sky, não teria Alice voado para as estrelas, ao invés de caído em um buraco?
Que viagem este post. Maravilhoso, Andrea! Curioso, instigante, ótimo.
A versão do Tim Burton para Alice é sensacional, mas nada como a psicodelia escondida da versão animada.
Que maravilha! Nunca havia feito essa ligação. Muito bom mesmo.
Vou copiar e arquivar esse texto. Adorei. Virei fã de Alice por culpa de Borges e (também) coleciono versões desde então! Bjs
Que lindo!! Cada vez mais admiro vc!! Meg Zarur
Que post delicioso.
Ótima leitura. Vc é daquelas que entregam um cartão a mão para os amigos? Jura que vc tem tempo???
Só pra esclarecer, a entrevista de Lennon à playboy foi feita em setembro de 80 e publicada em janeiro de 81, quando ele já tinha sido assassinado: segue o link da entrevista na integra: http://www.john-lennon.com/playboyinterviewwithjohnlennonandyokoono.htm
Quando li o título pensei que vc tinha fumado um. hahahaha.
Mas tudo a ver. Gostei demais. Uma viagem maravilhosa, intelectual e que nos faz ir além. Quero reler Alice. E a culpa é sua. Minha namorada vai rir de mim, mas antes dela rir mandarei o link para ela. rsrs Muito doido seu blog.
Ler seu blog ´´e com estar massageando a alma. “E delicadol como sempre vc foi . Suas mem´´orias me remetem“as nossas e fico saudosa do tempo que dividimos amigos e pensamentos, risadas regadas a biritas desculp´´aveis. Revive Bart^^o ameno e cr´´itico em seu sil^^encio falador. E com Paulo M. C. brincamos de Alice tantos anos depois de piscinadas noturnas com amigos, uns presentes, muitos distantes, alguns para sempre encantados e outros que se foram. Agora cada uma com sua Alice. Todas a mesma que quando conhecemos jamais a esquecemos. Ela abre e fecha portas, ela encontra. Foi gostoso te reencontrar assim. Vou continuar te acompanhando com muito carinho. Grande beijo da amiga,
Ana Esther Della Croce.