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OS OUTROS E EU

 

Há poucos dias, em meio a uma conversa, não sei bem porque me lembrei de uma passagem da minha infância.

Quando eu era criança meu avô me ensinou um jogo que, hoje, acredito que ele  tenha inventado.  Nós o chamávamos de Trocar de Lugar.

Meu avô Tancredo e eu

A brincadeira consistia em usar a imaginação e trocar de lugar com uma outra pessoa, em qualquer situação em que estivéssemos. A fila da livraria estava muito lenta, por que o funcionário estava demorando mais do que o necessário para fazer o atendimento? Ao invés de ficar impaciente, a ideia era trocar de lugar com ele e tentar compreender porque ele agia assim. Estava cansado? Tinha acordado muito cedo? Não tinha dormido direito? Alguém estaria doente na família?

Comecei jogando com meu avô e, aos poucos, sem que eu percebesse, estava jogando sozinha.

A intolerância da minha adolescência, fez com que o Jogo me parecesse politicamente correto demais e eu me esforcei para abandoná-lo. Me lembrava Pollyana. Para quem não conhece, Pollyana foi um livro de leitura quase obrigatória para as meninas da minha geração. Era a estória de uma órfã que inventou o Jogo do Contente: por pior que fosse a situação, ela sempre encontrava uma razão para ficar contente. Do tipo: quebrou uma perna? Que bom que não foram as duas!

Mas a verdade é que assim como outras experiências da minha infância, de forma silenciosa, esse jogo já havia feito raízes no meu jeito de pensar e lidar com a vida. Já havia me ensinado a enxergar a mesma realidade de ângulos diferentes. A incorporar o olhar do outro ao meu.

E o Jogo virou mais um companheiro de viagem.

 

Não viajo sozinha. Caminho com e pelos que eu amo.

Como Drummond, do lado esquerdo também carrego os meus mortos.

E a todos eles, somam-se os meus “outros” nesse jeito multifacetado de ver e perceber as coisas.

Pensando bem, às vezes, acho que é gente demais para uma viagem só. Para uma vida só.

11 pensamentos em “OS OUTROS E EU

  1. A infância é um dos momentos mais felizes na vida de qualquer pessoa, é nela que se forma o adulto do futuro, mas algo especial sempre fica guardado em nossas memórias, dos nossos avós, da paciência de brincar conosco, superar até as limitações do próprio físico e até mesmo dos compromissos profissionais para acompanhar as peraltices de qualquer criança feliz, quantas brincadeiras revivemos em nossos filhos, pelo simples fato da reviver o melhor vida, a infância,

  2. Que foto mais linda!! Com certeza, quanto mais simples aprendermos a ser (o segredo sempre é deixarmos de ser complexos), mais facilidade temos em “brincar de trocar” e sermos muitos em uma só vida. É bom ouvir essa confissão lúcida de quem sempre se mostra tantas em uma só, de quem mostra sua grandeza a partir da simplicidade e da beleza da alma… O olhar da menina da foto continua o mesmo!

  3. Ver você falando assim me faz lembrar da ansiedade que eu tinha de ver Tancredo tomando posse e do quanto eu chorei quando isso não pode acontecer. Bonita homenagem a ele Andrea, parabéns!

  4. Que legal. Essa brincadeira traduz bem o espírito conciliador de Tancredo. Bom saber desses detalhes tão íntimos de uma das figuras mais brilhantes de nossa política.
    Conta mais pra gente.

  5. Andrea,

    Prazeroso ler suas reflexoes … Tambem fazem a gente pensar e relembrar sobre estes ensinamentos que temos daqueles que nos acompanharam ao longo da vida e que sem perceber fazem parte do nosso jeito de ser. Me fez lembrar com mtas saudades do meu pai. Obrigada por este post !

  6. Texto lindo que representa a coerência dos acertos humanos e políticos de nosso saudoso Tancredo e herdado com grande sabedoria por você Andréa.

  7. Você tem a imensa sorte de ter convivido tão de perto com a sabedoria de um avô que era a encarnação viva da História Brasileira e que, ainda assim, encontrava tempo para repassar sua sabedoria aos netos. Que bom deve ter sido ter um companheiro de brincadeiras chamado Tancredo Neves. Não é à toa que você tem esta sabedoria inerente a seu comportamento, como pessoa e ser ao mesmo tempo tão aplicada ao entendimento político.

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