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TEMPO

 

Uma pessoa muito especial me disse uma vez que a vida é longa, mas passa rápido. Com isso, ele queria dizer que temos, durante a nossa vida, a chance de termos experiências muito diferentes, de sermos muitos e vários, sendo ao mesmo tempo apenas um e o mesmo.

De certa forma, tenho vivido assim.

Vivi o ideal do movimento hippie e, ainda muito jovem, atravessei – quase todo – os Estados Unidos em um ônibus colorido, em que as cadeiras foram substituídas por um piso alto de madeira onde nos embrulhávamos em nossos sacos de dormir e tocávamos violão enquanto viajávamos em direção à Califórnia.

Vivi o sonho da revolução e fui para a Nicarágua ver de perto a Revolução Sandinista. Conheci o Comandante Zero e devo ser uma das poucas brasileiras que ainda sabe de cor o hino da Frente Sandinista de Libertação Nacional.

Vivi a paixão pela literatura e fui salva pelos livros em vários momentos da minha vida.

Foram muitas as Andreas. Todas elas são mães da Andrea que sou hoje.

Penso nisso e me pergunto qual delas sussurra no meu ouvido diante de cada decisão, de cada escolha…

Penso nelas, na mulher em que nos transformamos, e sorrio intimamente ao perceber que elas estão todas vivas.

De alguma forma vivem todas em mim.

 

 

Oração Ao Tempo

Caetano Veloso


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo…
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo…

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo…

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo…

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo…


O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo…
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo…

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo…

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo…

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KONY

 

Nos últimos anos ficou comum escutarmos o quanto a internet está transformando o mundo em que vivemos.

Alguns relatos impressionam. Ver o papel das redes sociais ao furar o bloqueio de informações na “Primavera Árabe”, por exemplo, impressiona.

Mas novas formas de ação estão surgindo e, certamente, muitas outras ainda surgirão.

 

FAMA

Kony 2012

Pôster Kony 2012

 

Existe um documentário denúncia na internet chamado Kony 2012, criado pela ONG Invisible Children e que se tornou o maior viral da internet. O vídeo conta uma historia:

Em Uganda,  há décadas, existe um grupo chefiado por um homem chamado Joseph Kony. Esse grupo sequestra crianças e as transforma em soldados, violenta meninas e mantém milhares de pessoas sob terror.

Há alguns anos o fotógrafo americano Jason Russell visitou o país, teve uma percepção e uma ideia:

Kony só se mantém livre e ameaçador, porque o mundo não conhece suas atrocidades. A sombra o protege.

Russell decidiu então, usar os princípios que regem a nossa sociedade contra a lógica que rege essa mesma sociedade.

Somos uma sociedade que presta atenção naquilo que é famoso? Que se mobiliza em torno da fama? Pois ele decidiu fazer Kony ficar famoso. Transformá-lo em uma celebridade. Não para homenageá-lo, mas para revelá-lo. Expô-lo. Para não permitir que os governos esqueçam que ele existe. Para que o mundo não possa mais ignorá-lo. Para que nós não possamos mais ignorar os milhares de meninos e meninas, homens e mulheres que ele ameaça…

Segundo a Wikipédia, celebridades como Rihanna, Bono Vox, Bill Gates, Mark Zuckerberg apoiaram a causa.

Algumas pessoas questionam aspectos desse Movimento. Dizem que a violência não é monopólio de um único grupo armado e que essa iniciativa poderia estar criando falsos ativistas, pessoas que acreditam que, apenas dando um click, estão ajudando a transformar a sociedade.

Eu acho que vale a pena assistir ao vídeo. Veja o que você acha:

 

 

É verdade que a internet nos torna capazes de ouvir o pedido de socorro que vem de qualquer parte do mundo. Mas são os nossos princípios e os nossos corações que nos fazem capazes de escutar. E agir.

Com ética e tecnologia, o mundo decididamente pode ser outro.

PS. Foi minha filha quem me contou essa história.
Ética, tecnologia e uma nova geração que se importa: o mundo decididamente pode ser outro.

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DIGNA IDADE

 

Quando pequenos, meus irmãos e eu passávamos todas as férias em Cláudio, pequena cidade do interior de Minas, onde nasceu minha avó e onde vivia nossa bisavó.

Muitos tios e primos, muitas cavalgadas, muitos violões em torno de fogueiras. As mesmas músicas, sempre! Uma delas sempre me marcou. Uma moda de viola chamada Couro de Boi que cantamos juntos durante muitos anos.

Tempos depois, já à frente do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), lançamos, em parceria com o Governo do Estado, um programa de valorização da pessoa idosa chamado: Digna Idade. Me veio então a ideia de propor uma campanha publicitária que usasse essa música como tema.

Conversamos com Zezé di Camargo que nos contou que a música também marcara sua vida. Ele gravou o comercial sem cobrar. Algumas entidades de classe e empresas se uniram para viabilizar sua exibição. Soube que a peça foi traduzida para outros idiomas por pessoas que a viram na internet.

É um grito para nos despertar da nossa própria desumanidade.

Você já viu?

Campanha de valorização do idoso – Servas e Governo de Minas

Campanha de valorização do idoso – segunda etapa.

 

 

Veja mais:

Zezé di Camargo no lançamento da Campanha do Idoso – Servas e Governo de Minas

Governador Aécio Neves no lançamento da Campanha do Idoso – Servas e Governo de Minas

 

 

Veja abaixo a letra da música:

 

Couro de Boi

Teddy Vieira / Palmeira


Existe um velho ditado
que é do tempo do zagaio
que diz que um pai cuida de 10 filhos.
Mas 10 filhos nao cuidam de um pai.
Sentindo o peso dos anos
sem poder mais trabalhar,
o velho peão estradeiro,
com seu filho foi morar.

O rapaz era casado
e a mulher deu de implicar.

“Você manda o velho embora,
se não quiser que eu vá”.

E o rapaz, coração duro,
com o velhinho foi falar:

Para o senhor se mudar,
meu pai, eu vim lhe pedir.
Hoje aqui da minha casa
o senhor tem que sair.

Leve este couro de boi
que eu acabei de curtir.
Pra lhe servir de coberta
aonde o senhor dormir.

O pobre velho calado,


pegou o couro e saiu.
Seu neto de oito anos
que aquela cena assistiu.
Correu atrás do avô,
seu paletó sacudiu.
Metade daquele couro,
chorando ele pediu.

O velhinho, comovido,
pra não ver o neto chorando
Partiu o couro no meio
e pro netinho foi dando.

O menino chegou em casa,
seu pai foi lhe perguntando.

Pra quê você quer este couro
que seu avô ia levando?

Disse o menino ao pai:
um dia vou me casar
o senhor vai ficar velho
e comigo vem morar.

Pode ser que aconteça
de nós não se combinar.

E essa metade do couro
vou dar pro senhor levar.

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FILHOS

Para mim, a mais absoluta de todas as aventuras tem sido a da maternidade: a maior alegria, a maior curiosidade e o maior desafio.

Os filhos nos trazem ao mesmo tempo – e todo o tempo – o velho e o novo.

Novas descobertas, preocupações e dúvidas. Ressuscitam antigos sonhos e desejos. Ressuscitam uma parte de nós mesmos.

São espelho e relógio.

É neles que vemos que o tempo passa. Passou. Está passando.

Sempre achei que o tempo passa em velocidade diferente, dentro e fora da gente.

Passa rápido por fora e devagar por dentro.

Como explicar as rugas no rosto, quando ainda nos sentimos os mesmos de vinte anos atrás?

Quando olhamos no espelho não nos enxergamos como os outros nos veem, mas como nos sentimos. Por isso não nos surpreendemos.

É nos nossos filhos que percebemos que o tempo passa, não em nós.

Post: Filhos

Filhos

CARTA

Há alguns anos minha filha fez 15 anos. A data me tocou muito. Escrevi essa carta que entreguei a cada mãe que acompanhou seu filho na comemoração que fizemos.

Cara amiga,Minha geração não fez festa de quinze anos.

Por isso, sempre vi com muita curiosidade o movimento das meninas de hoje em torno dessa celebração.

E, mais surpresa fiquei, quando minha filha me disse que gostaria de comemorar os dela…
Ao me envolver nos preparativos da festa aprendi uma lição: festa de quinze anos não é só da filha. É da mãe também.

O grande momento da festa, todos sabemos, é a valsa. E, ao pensar nela, descobri, de repente, o que para muitas mães certamente já está claro há muito tempo:

A valsa é magia.

O rito de passagem.

O momento cinderela, em que tudo se transforma.

Não por acaso, ela deve ocorrer à meia-noite.

Na valsa, nossas filhas começam a dançar meninas e terminam moças.

Por isso, elas começam pelos braços dos pais, avós e tios e terminam de mãos dadas com primos e amigos.

Começam a dançar levadas por aqueles que guiaram seus primeiros passos e terminam ao lado daqueles com quem vão caminhar, sozinhas, daqui para frente.

No começo da valsa são olhadas por olhos que veem a menina.

No final são observadas por olhos que anteveem a mulher.

Por isso, para elas, a valsa é o momento da excitação e, para nós, da emoção não bem compreendida.

É o momento da chegada do novo e da despedida do antigo.

É o momento de saudar o adivinhado e começar a se desvencilhar do conhecido.

Quando minha filha nasceu, há quinze anos, me lembrei de um conto de fadas, o da Bela Adormecida.

E pensei em quais seriam os três dons que, se eu pudesse, ofereceria a ela.

Não tive dificuldades em escolher.

Primeiro, que ela fosse tocada pela bondade.

A solidariedade vem do coração, a generosidade da razão, mas a bondade é filha do espírito. Por isso é mãe de ideias e sentimentos.

Depois, pela sabedoria.

Sabedoria para não se perder de si mesma durante a caminhada e para não deixar de acreditar em si mesma, quando as noites forem longas demais.

Mas sabedoria, sobretudo, para não esquecer nunca o caminho de casa.

E, por fim, que ela pudesse ser visitada pela alegria.

Porque alegria é um jeito de acordar. É um jeito de conversar com o mundo. É viver colorido, é o jeito de olhar para a vida e não depende do jeito que a vida olha para nós.

Hoje, eu gostaria de desejar que as vidas de seus filhos sejam também tocadas pela bondade, pela sabedoria e pela alegria.

E, pensando em cada um deles,

Quaisquer que sejam as idades deles,

Quaisquer que sejam os sonhos que os motivem peço, com afeto:

Que Deus abençoe as nossas meninas e meninos…

Obrigada pela sua presença,

Com a amizade da

Andrea

MÚSICA

Sempre gostei muito dessa música do Crosby Stills Nash e Young. Você conhece?

VIDEO

Teach Your Children

Ensine seus filhos

You who are on the road
Must have a code that you can live by
And so become yourself
Because the past is just a good bye.
Você que está na estrada
Deve viver sob um código
e asssim ser você mesmo
Porque o passado é só uma despedida
Teach your children well,
Their father’s hell did slowly go by,
And feed them on your dreams
The one they picked, the one you’ll know by.
Ensine bem seus filhos,
Porque o inferno dos pais vai passando devagar
E alimente-os nos seus sonhos
Aqueles que eles escolherem, aqueles que você ficará sabendo
Don’t you ever ask them why, if they told you, you would cry,
So just look at them and sigh and know they love you.
Nunca pergunte a eles porquê, se eles disserem, você poderia chorar
apenas olhe pra eles e saiba  que eles amam você.
And you, of tender years,
Can’t know the fears that your elders grew by,
And so please help them with your youth,
They seek the truth before they can die.
E você, ainda nos suaves anos
Não  conhece os medos  que seus pais enfentaram
Então, ajude-os  com a sua juventude,
para que eles  procurem  a verdade antes que possam morrer.
Teach your parents well,
Their children’s hell will slowly go by,
And feed them on your dreams
The one they picked, the one you’ll know by.
Ensine bem seus pais,
O inferno dos seus filhos vai passar devagar
E alimente-os nos seus  sonhos
Aquele que eles escolherem, aquele que você vai ficar sabendo
Don’t you ever ask them why, if they told you, you would cry,
So just look at them and sigh and know they love you.
Nunca pergunte a eles porquê, se eles disserem, você poderia chorar
apenas olhe para eles e saiba  que eles amam você.

 

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GUERRA DO VIETNÃ

 

A FOTO

Uma das imagens que marcou a minha juventude completa, este ano, inacreditáveis 40 anos.

É uma foto de Huynh Cong Ut da agência Associated Press que recebeu o Prêmio Pulitzer de 1973 e que retrata uma menina fugindo do bombardeio de napalm sobre a sua aldeia, durante a Guerra do Vietnã.

 

Garotos Vietnã

Imagem da Guerra do Vietnã, ganhadora do Prêmio Pulitzer de 1973, de Huynh Cong Ut

 

Essa imagem simbolizou para o mundo a covardia de todas as guerras e, em especial, naquele momento, a da Guerra do Vietnã que se apresentava como uma luta ilegítima e desigual.

Manifestações contra a guerra ocorreram por todos os cantos.

Jovens queimaram bandeiras em diversas partes do mundo, criando uma nova e simbólica fronteira onde se encontravam aqueles que defendiam a paz.

John Lennon e Yoko Ono protagonizaram o BED IN e passaram a lua de mel na cama de um hotel em Amsterdã, recebendo repórteres e chamando a atenção sobre a guerra.

 

Foto: John e Yoko

John Lennon e Yoko Ono

 

 

O FILME

Em 1974, o documentário Corações e Mentes, de Peter Davis, lançado no Festival de Cannes chocou o mundo. Tido como um dos documentários políticos mais importantes de todos os tempos, o filme mostra a Guerra que matou mais de um milhão de vietnamitas e mais de 40 mil soldados americanos.

 

Filme: Corações e mentes

Capa do filme: Corações e mentes

Imagem encontrada na internet.

A MÚSICA

A guerra do Vietnã inspirou muitas músicas. Mais de 3 mil canções foram gravadas tendo de alguma forma a Guerra como inspiração. Bob Dylan e Jimmy Hendrix interpretaram All Along the Watchtower. Crosby Stills Nash e Young cantaram Ohio. Os Beatles fizeram Revolution.

John Lennon fez Give Peace a Chance.

A música que me remete imediatamente à memoria desse tempo é uma canção de John Denver, de 1966, que se chama Leaving on a Jet Plane e que ficou famosa na interpretação de Peter, Paul e Mary.

É a imagem da solidão e do desamparo de um jovem americano partindo para a guerra contra a sua vontade .

Você conhece?

Veja se não é o tipo da música que dá vontade de cantar junto…

Clique aqui e veja a letra e tradução da música.

 

A foto faz 40 anos.
A música faz 46 anos.
Inacreditável.

 

Por fim, esse pequeno trecho de Clarice Lispector no Jornal do Brasil em 1970:

Texto de Clarice Lispector

Texto de Clarice Lispector publicado em 1970

“Um de meus filhos me diz: “Por que é que você às vezes escreve sobre assuntos pessoais?” Respondi-lhe que, em primeiro lugar, nunca toquei, realmente, em assuntos pessoais, sou até uma pessoa muito secreta. E mesmo com os amigos só vou até um certo ponto. É fatal, numa coluna que aparece todos os sábados, terminar sem querer comentando as repercussões em nós de nossa vida diária e de nossa vida estranha. Já falei com um cronista célebre a este respeito, me queixando eu mesma de estar sendo muito pessoal, quando em 11 livros publicados não entrei como personagem. Ele disse que na crônica não havia escapatória. Meu filho, então, disse: “Por que você não escreve sobre vietcong?” Senti-me pequena e humilde, pensei: que é que uma mulher fraca como eu pode falar sobre tantas mortes sem sequer glória, guerras que cortam a vida das pessoas em plena juventude, sem falar nos massacres, em nome de quê, afinal? A gente bem sabe por que e fica horrorizada. Respondi-lhe que deixava os comentários para um Antonio Callado. Mas, de súbito, senti-me impotente, de braços caídos. Pois tudo o que fiz sobre vietcong foi sentir profundamente o massacre e ficar perplexa. E é isso que a maioria de nós faz a respeito: sentir com impotência revolta e tristeza. Essa guerra nos humilha”.

A memória dela também.

 

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OS OUTROS E EU

 

Há poucos dias, em meio a uma conversa, não sei bem porque me lembrei de uma passagem da minha infância.

Quando eu era criança meu avô me ensinou um jogo que, hoje, acredito que ele  tenha inventado.  Nós o chamávamos de Trocar de Lugar.

Meu avô Tancredo e eu

A brincadeira consistia em usar a imaginação e trocar de lugar com uma outra pessoa, em qualquer situação em que estivéssemos. A fila da livraria estava muito lenta, por que o funcionário estava demorando mais do que o necessário para fazer o atendimento? Ao invés de ficar impaciente, a ideia era trocar de lugar com ele e tentar compreender porque ele agia assim. Estava cansado? Tinha acordado muito cedo? Não tinha dormido direito? Alguém estaria doente na família?

Comecei jogando com meu avô e, aos poucos, sem que eu percebesse, estava jogando sozinha.

A intolerância da minha adolescência, fez com que o Jogo me parecesse politicamente correto demais e eu me esforcei para abandoná-lo. Me lembrava Pollyana. Para quem não conhece, Pollyana foi um livro de leitura quase obrigatória para as meninas da minha geração. Era a estória de uma órfã que inventou o Jogo do Contente: por pior que fosse a situação, ela sempre encontrava uma razão para ficar contente. Do tipo: quebrou uma perna? Que bom que não foram as duas!

Mas a verdade é que assim como outras experiências da minha infância, de forma silenciosa, esse jogo já havia feito raízes no meu jeito de pensar e lidar com a vida. Já havia me ensinado a enxergar a mesma realidade de ângulos diferentes. A incorporar o olhar do outro ao meu.

E o Jogo virou mais um companheiro de viagem.

 

Não viajo sozinha. Caminho com e pelos que eu amo.

Como Drummond, do lado esquerdo também carrego os meus mortos.

E a todos eles, somam-se os meus “outros” nesse jeito multifacetado de ver e perceber as coisas.

Pensando bem, às vezes, acho que é gente demais para uma viagem só. Para uma vida só.

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FLASH MOB

 

Flash Mob aqui

Existem algumas experiências que marcam a gente. Podem durar minutos. Podem gerar tristeza, surpresa ou alegria. Vivi um momento assim, ao participar de um Flash Mob organizado  em  março de 2010,  pelos alunos do Valores de Minas, um programa do Servas e do Governo de Minas.

Flash Mob significa uma mobilização rápida, previamente  combinada através das redes sociais. As pessoas se encontram no horário marcado, e fazem  uma intervenção – que geralmente envolve música e dança – na rotina do local.

Quando termina, todos retornam imediatamente ao que estavam fazendo antes.

 

O nosso Flash Mob ocorreu em Belo Horizonte, como parte da inauguração do Circuito Cultural da Praça da Liberdade.

Para mim, foi um momento de muita emoção: celebrar ao lado dos jovens do Programa, comemorar o início do Circuito…

Até o Aécio que, na época era governador e estava assistindo à apresentação ao lado do Anastasia, então vice governador, não resistiu e se juntou a nós na intervenção.

 

Flash Mob – Belo Horizonte 2010

 

Flash Mob lá

Um Flash Mob realizado em Londres, cujas imagens estão disponíveis na internet também é muito especial.

Uma empresa de telefonia celular enviou torepedos convidando as pessoas a se encontrarem às 18 horas do dia 30 de abril de 2009 na Trafalgar Square. Ninguém sabia o que ocorreria no encontro. Cerca de 13 mil pesssoas atenderam ao convite.

Nesses dois exemplos fica claro o que eu acredito que seja a grande força dessas intervenções:  a sensação de pertencimento que gera energia, reconhecimento e emoção.

Veja que lindo:

 

Flash Mob – Londres 2009

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UM MINUTO COM BARTÔ


Na segunda-feira, 23 de janeiro, sete dias após a morte do Bartolomeu, nos reunimos alguns amigos, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

 

Bartolomeu Campos Queirós

Foto: Bartolomeu Campos de Queirós

A ideia era que cada um trouxesse e lesse o seu trecho preferido da obra dele.

“Um minuto com o Bartô” foi o nome que demos ao nosso encontro.

Nos reunimos, lemos uns para os outros, demos as mãos e cantamos juntos. Simbolicamente cada um segurou a luz que iluminou a leitura do outro.

Partilhamos o que tínhamos em comum: o afeto por um homem que foi, ao mesmo tempo, um escritor e um ser humano muito especial.

 

DESPEDIDA

Perdi um amigo
E, dessa vez, não foi por descuido
Esse era bem guardado, não ficava muito à vista
Nem era do tipo que se exibe pras visitas.

 

TEMPO

Bartô se foi no amanhecer de uma segunda-feira
E o primeiro sentimento que tive foi o da velocidade me atropelando.
Tudo está acontecendo muito rápido, hoje em dia. Até a morte. Tem se morrido muito rápido. Antigamente, morria-se mais devagar.

Quem leu pelo menos um dos livros dele sabe que Bartô não escrevia, bordava palavras.

Ele era a delicadeza que emprestava ao seu texto.

As palavras dele nasciam grávidas. De significados, de sentimentos. Eram completas, inteiras.

 

TEMPO DE VOO

Velórios são lugares tristes. Há a perda definitiva de quem se vai, mas há também o contato com outras perdas que, fantasiadas de reencontros, nos envolvem em melancolia. São amigos queridos de outras épocas, outras vidas, que se reveem de forma fugaz, dividem lembranças e marcam, com sinceridade, encontros que nunca vão acontecer.

 

NO VELÓRIO DO BARTÔ

eu me lembrava

do dia em que ele disse: tenho uma surpresa para você, mas não posso contar agora…

e do outro dia em que ele disse: está demorando, mas espera…

e, finalmente, do dia em que ele ligou e disse: vou passar aí.

E me deu um livro. Tempo de Voo.

Eu abri.
E fiquei muito emocionada.
Ele havia dedicado o livro a mim. O livro é sobre o Tempo, essa entidade que ele sabia, tanto me assombra. O livro é maravilhoso.

Bartô dedicou vários de seus livros a amigos: Nelly, Angela…

Hoje, lamento não ter dito mais a ele como esse gesto explicito de afeto me tocou. Como foi especialmente importante para mim naquele momento da minha vida.

Nós sempre sentimos (sentimos ou sabemos?) que faltou alguma coisa, quando nos despedimos daqueles que amamos: faltou uma última palavra, um abraço, um pedido de desculpas. Faltou ter encontrado mais, ter ajudado mais, ter agradecido mais.

Faltou. Falta. Vai faltar.
Bartô.

PS.: No dia 12 de janeiro inaugurei este espaço. No dia seguinte recebi esse último e-mail do Bartô, que morreu dois dias depois:

Andrea,

visitei seu Blog e gostei muito. Nos faz voltar ao passado e nos leva até os desastres do presente. Vou acompanhá-lo sempre.
Bartolomeu.

 

Sempre é uma palavra que combina com o Bartô.

Sempre. Pra sempre.
Bartô.

 

 

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1963: PARLAMENTARISMO X PRESIDENCIALISMO

Minha formação profissional é na área de comunicação. Antes mesmo de terminar a faculdade,  já havia trabalhado em algumas campanhas eleitorais. Por circunstâncias e vontade, acabei me especializando em trabalhos nas áreas eleitoral e pública.

Envolvida há tanto tempo nessas áreas, é difícil encontrar uma peça de publicidade, que realmente me surpreenda ou sensibilize.

Digo isso para introduzir a peça de propaganda abaixo. Trata-se de um jingle de 1962, no formato de programa de rádio, em defesa da volta do presidencialismo no Brasil.

Acredito que toda peça publicitária precisa ser entendida dentro do contexto em que foi produzida. Essa ilustra uma época em que o rádio tinha imensa importância na vida nacional.

 

História

Em 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, o país se viu diante de um impasse. De um lado, defensores da ordem democrática lutavam para que fosse garantida a posse do vice presidente João Goulart. De outro, articulavam-se os setores que viam na posse de Jango uma ameaça a seus interesses.

Veja o manifesto divulgado por Tancredo Neves na época.

Carta Manifesto à Nação

Manifesto de Tancredo à Nação

 

Parlamentarismo

Diante da ameaça de uma ruptura democrática, foi construída a solução parlamentarista.  Com ela, setores  democráticos  acreditavam ganhar tempo ou para que  o Brasil se adaptasse à nova forma de governo  ou para que o Presidente Goulart  se fortalecesse à frente do pais e conseguisse retornar ao sistema presidencialista  sem  o risco de um golpe militar.

Implantada em 1961, a experiência parlamentarista durou pouco. Em 1963, foi realizado um plebiscito para que a população escolhesse entre a manutenção do novo sistema de governo ou a volta ao presidencialismo, defendida pelo Presidente.

Venceu a volta ao presidencialismo com cerca de 80% dos votos.

Em 1964, o golpe militar interrompeu a trajetória democrática do país. O golpe ameaçado em 1961 se concretizou em 1964.

Você pode ouvir aqui a gravação do jingle que defendia a volta ao presidencialismo.  Veja se não é uma delícia!

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O QUE JOHN LENNON, PINK FLOYD, VIRGINIA WOOLF E BORGES TEM EM COMUM?

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Eu ainda era muito jovem, quando descobri que Alice no País das Maravilhas não era um livro comum. Nem era um livro para crianças. Ou melhor, não era um livro apenas para crianças.

De lá pra cá, de uma forma ou de outra, o livro sempre esteve perto de mim. Nos últimos anos assumi o meu encantamento  com a obra e, simbolicamente,  entrei no Clube que reúne, no mundo todo, admiradores de Lewis Carrol e, em particular, de Alice.

Hoje, coleciono edições do livro – algumas em idiomas que não sei sequer ler -, visito sebos, e recolho, por onde viajo,  leituras e releituras tidas como interpretações  filosóficas  ou psicanalíticas da obra.  Mas nenhuma releitura se compara ao original.

O livro , escrito há quase 150 anos, vem despertando curiosidade desde então.

Veja  a  diferença de linguagem  entre a primeira (1903 – Direção de Percy Stow e Cecil Hepworth) e a última (2010 – Direção de Tim Burton) filmagem de Alice.

 

Beatles

John Lennon disse, em entrevista à Playboy em 1981, que a letra de Lucy in the Sky with Diamonds, foi inspirada no livro. E a  canção, I’m the Walrus, foi baseada no poema: The Walrus and the Carpenter de Alice no País do Espelho.

Cada um dos Beatles indicou algumas das pessoas que compõem a capa do álbum “Sgt. Pepper’s” de 1967. O rosto de Carroll está lá,  por escolha de  Lennon.

Beatles

Beatles e Alice no País das Maravilhas

Diversas outras bandas  se inspiraram no livro. Existe  um blog  que relaciona  músicas ligadas à obra.  Lá estão, entre outros, Pink Floyd, Jefferson Airplane,  Aerosmith, Chick Corea e Avril Lavigne. Veja: http://migre.me/7GvJP

 

Escritores

Virginia Woolf disse que  apenas Lewis Carrol nos mostrou o mundo de cabeça para baixo, como  é visto por uma criança, e foi capaz de nos fazer rir como uma.

Jorge Luís Borges comentou trechos da obra.

Existe alguma coisa mágica no livro. Cada vez que eu  leio uma página, sou alcançada por um sentido diferente. As ironias soam novas. É um livro para ser lido em fatias ao longo do tempo. Aos 6 anos a graça é uma. Aos sessenta, é outra. E melhor.

O meu passaporte para esse mundo oculto de Alice foi um texto de Paulo Mendes Campos chamado “Para Maria da Graça”. Já dei esse texto para diversos amigos em seus aniversários. Já o enviei para os filhos dos amigos, quando nasceram. Veja:

 

Para Maria da Graça

Paulo Mendes Campos

Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. 
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. 
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca.

Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
 A realidade, Maria, é louca.Clique aqui e leia na íntegra