Cada um de nós tem a sua própria medida para perceber que o mundo está encolhendo. Há quem garanta que ele também está derretendo. Não sei. Mas que as distâncias, sejam elas geográficas ou culturais, estão diminuindo, isso estão.
PLAYING FOR CHANGE
Sou uma das milhões de pessoas que assistiram no YouTube um vídeo em que músicos de rua do mundo inteiro cantam Stand by Me.
É maravilhoso!
O vídeo é um projeto do Playing For Change, um movimento multimídia – que terminou dando origem a uma banda – que busca inspirar e conectar o mundo através da música.
VOZES DO MORRO
O Vozes do Morro, criado em 2008, é um programa do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) , Governo de Minas, Sert-MG e Sebrae-MG. Ele é voltado para moradores de vilas e favelas e busca fazer girar a roda da solidariedade, abrindo caminhos para divulgação de artistas e criando novas referências de valor e sucesso nessas comunidades.
PLAYING FOR CHANGE E VOZES DO MORRO
O Vozes aqui em Santa Luzia, no Alto Vera Cruz e na Vila do Cafezal.
O Playing for Change lá em Barcelona, na África do Sul e em Amsterdã.
Até o dia em que eles chegaram em Belo Horizonte e convidaram dois artistas do Vozes, Tom Nascimento e Rafael Dias, para participarem do próximo CD da banda.
O aqui virou lá e o lá virou aqui.
Veja os bastidores da gravação dos músicos do Playing for Change e do Vozes do Morro, feita em novembro de 2011, no Aglomerado Santa Lúcia em Belo Horizonte.
E veja o clip gravado pela banda aqui em Belo Horizonte, que está no site oficial do Playing for Change (www.playingforchange.com).
Distâncias menores, pessoas mais próximas, sonhos divididos e fortalecidos.
De vez em quando, dá pra acreditar que a transformação é possível.
Bartolomeu se foi no amanhecer desta segunda-feira. Depois de me despedir do que ficou dele, fui para casa e tentei escrever algumas palavras, buscando nas lembranças, as nossas histórias.
Quero muito fazê-lo, mas ainda não consegui. Rendi-me à impotência e fui fazer o que sei fazer de melhor: mexer em papéis e sentir saudade.
Encontrei essa carta que ele me enviou em fevereiro de 2009, quando fiz 50 anos. Fiquei na dúvida se devia trazê-la aqui. Ouvi alguns amigos e decidi que sim.
Menos pelo que fala de mim e, mais, pelo que revela dele. Poesia e generosidade. Disso era feito o Bartô.
Andrea, amiga minha.
Não sou adivinho, mas por algumas vezes sei ler no movimento das ações a intenção da alma. Mas nada me é necessário, Andréa, para adivinhar o seu sonho, pela densidade da sua transparência. Pelo seu trabalho, cotidiano e intenso, é possível desvendar o seu desejo de construir uma sociedade sem faltas, injustiças, desigualdades. Seu destino incansável de jogar luz sobre o crepúsculo confirma sua clareza de ideal. Seu carinho com os anônimos, os desvalidos, é uma graça que você recebeu e exerce sem vaidade. Não ser vaidoso é ser capaz de confraternizar-se.
Durante os longos anos de nossa amizade, em que você é sempre mais cuidadosa comigo do que eu com você, em todo momento me surpreendo com seus gestos de cumplicidade, compaixão e tolerância. Sua maneira de perceber o mundo, com suas nuances e desconfortos, ao contrário de muitos que o expressam apenas por palavras e lamentos, você o manifesta com trabalho.
Guardo nossa amizade no meu silêncio. Daí poder lhe afirmar que o silêncio oferece mais espaço para o amigo se expressar. Pelo silêncio o amigo nos presenteia com mais liberdade. E como sua liberdade é aprisionada pela urgência do muito que há por fazer!
Mesmo sendo escritor, nunca lhe escrevo. Como escritor passo mais tempo lendo. Nesse ofício de ler, aprendi que o olhar é raso e só acaricia as cascas. É preciso deixar o coração soletrar. Por ser assim, leio você pelo seu fazer e cada vez mais me orgulho de ter sido eleito amigo seu. Não é que não sinto saudades quando as notícias escasseiam, mas não gosto de matar saudades. Saudade é um sentimento do que não foi esquecido e persiste. Daí, preservar, cultivar, refletir sobre a saudade é mais justo com sentimento tão nobre. Preservo você na saudade.
Com meu abraço amigo, lhe desejo um mundo em que seu sonho se faça mais e mais concreto. Assim, a felicidade será mais democrática e divisível.
Bartolomeu
PS.: Acabo de receber um email do Affonso Romano de Sant’anna me contando sobre o poema que ele postou para o Bartô.
Lindo!
Veja www.affonsoromano.com.br/blog
A guerra é, por si só, uma tragédia tão completa, que é difícil enxergar os enredos dos pequenos – mas nem por isso menores – dramas que, irreversíveis, a fazem ser definitivamente real .
O maior horror da guerra não está nos campos de batalha. Não está em matar soldados, mas em assassinar os filhos que eles são e os pais que poderiam vir a ser. Em dizimar – física e emocionalmente – milhões de famílias.
Há algum tempo atrás, quando visitei uma pequena cidade no interior da Inglaterra chamada East Dean, minha atenção se voltou para uma placa fixada na fachada de uma casa :
Numa tradução livre, a placa diz:
SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – EVACUAÇÃO
Essa placa relembra a data de 01 de setembro de 1939, quando crianças e professores da escola de ST. Albion em Rotherhithe, uma área devastada pelo bombardeio nas docas de Londres, foram evacuados para East Dean, Friston e Willingdon.
Aqui eles foram afetuosamente acolhidos por residentes e frequentaram essa antiga escola e outros colégios da região para continuar seus estudos até o dia 23 de junho de 1940 quando foram, mais uma vez, evacuados, a maioria sendo transferida para St. Clears, S. Wales, onde permaneceram até o final da guerra na Europa.
60 anos depois, em 2000, algumas dessas crianças que sobreviveram lembram, com gratidão e felizes lembranças, a proteção e a bondade de seus pais adotivos e professores em East Dean, Friston e Willingdon,
que são especialmente lembrados por:
Peter Todd- que viveu com o Sr. Stickland em Birling Manor e com a Srta. Stickland em East Dean. Ted Rouse – que viveu com o Sr. e a Sra. Nash em Friston Maisie Stothard – que viveu com o Sr. e a Sra. G. Taylor em East Dean George Walker – que viveu com o Sr. e a Sra. Foreman em Willingdon
Julho de 2000
Foi assim que tive contato, pela primeira vez, com uma dimensão da Segunda Guerra Mundial que desconhecia. E que me tocou de forma especial.
Durante a Guerra, o governo inglês organizou a retirada das crianças das maiores cidades do país. Elas deixaram suas casas e foram entregues a outras famílias, muitas desconhecidas, em pequenas cidades do interior, onde estariam a salvo dos ataques mais violentos. Algumas seguiram para outros países.
Cerca de um milhão de crianças foram transferidas, muitas acompanhadas por seus professores, apenas na primeira semana da Guerra. As famílias que as acolhiam recebiam uma pequena ajuda financeira do governo.
A ação tinha o objetivo de salvar vidas, mas é inevitável pensar que buscava também proteger o futuro da Inglaterra.
Pais e mães não eram obrigados a enviar seus filhos para longe, mas eram fortemente estimulados pelo governo a fazê-lo. Veja algumas das propagandas da época:
De todas, acho essa, que tentava convencer as mães a manterem os filhos longe de casa, a mais dolorosa. Nela, o desejo da mãe de ter os filhos perto de si, é confundido com o desejo de Hitler. Atender ao coração, é atender ao inimigo.
Penso nesse fio invisível que passou a tocar vidas até então desconectadas. Penso nos pais e mães tendo que abrir mão de seus filhos e da onipotência que todos temos de achar que eles sempre estão mais seguros perto de nós. Penso nas famílias que os receberam. E no terror das crianças sendo levadas para lares desconhecidos por tempo indeterminado.
Eu conhecia a história dos órfãos da guerra. Não conhecia a dos órfãos na guerra.
Publicações trazem relatos diversos sobre esse tema. Houve experiências ruins, de crianças maltratadas. Mas também aquelas que se adaptaram de tal forma aos lares temporários que tiveram dificuldades quando voltaram para casa. Há registros até mesmo de crianças maiores que, após o fim da Guerra, quiseram voltar a viver com os pais “adotivos”.
De qualquer forma, são milhões de vidas que foram brutalmente transformadas, aleatoriamente trançadas e entrelaçadas. Conflitos que não tiveram fim com o armistício.
São histórias silenciosas, escritas longe do barulho dos bombardeios, que confirmam que as cicatrizes deixadas pela guerra não são apenas físicas. Que as perdas não se medem apenas pelos caixões.
Dizem que para tudo na vida há remédio, menos para a morte. Não é verdade.
Sempre me surpreendo com a inesgotável capacidade das palavras de me surpreenderem (a redundância é proposital). Foi essa a minha sensação quando conheci pela primeira vez o projeto Secrets de Frank Warrem.
A ideia é uma dessas que parece simples depois que alguém faz pela primeira vez.
Em 2004, Warrem enviou e deixou em lugares aleatórios 3 mil cartões selados para resposta com um pedido: que a pessoa contasse um segredo que nunca tivesse tido coragem de contar para ninguém. Sob a proteção do anonimato, milhares de pessoas aceitaram o convite.
Você contaria seu maior segredo para alguém?
O site do projeto conta com mais de 150 mil cartões
O resultado é um projeto que ganhou o mundo e, em função do sucesso, já deu origem a quatro volumes.
Algumas das mensagens surpreendem pela delicadeza , pela mesquinharia ou pela violência.
Algumas são verdadeiros pedidos de socorro. Outras nos fazem lembrar de nós mesmos. Há aquelas que nos levam a imaginar o peso que significam para quem as carrega. Há algumas que nos fazem duvidar da sua veracidade.
Existem diversas explicações para o sucesso do projeto. Pessoalmente acredito que a leitura dos livros (o primeiro é o melhor) nos traz uma reconfortante certeza: a de que a dor não é privilegio de ninguém.
PostSecret - Exemplos
Nomes dos livros:
Postscret
My secret
A lifetime of secrets
The secret lives of men and woman
Editora Regan
Peço aos amigos para me manterem fora das centenas de correntes que parecem inundar a internet todos os dias. Nem todos levam a sério o meu pedido. Sempre há aqueles que acham extremamente original, engraçada ou reveladora a mensagem que receberam e simplesmente não conseguem deixar de passá-la adiante. Apesar da minha preguiça com a imensa maioria delas, até porque nos fazem perder um tempo enorme, reconheço que algumas são divertidas. É o caso dessa ação publicitária de uma água mineral.
Para contrabalançar, falando também de água, vale a pena conhecer esse vídeo contra o consumo exagerado de água engarrafada em países do primeiro mundo, onde há água de qualidade nas torneiras. Mais um alerta sobre o dano ambiental causado pelo excesso de embalagens.
Dizem que na vida, a gente sempre sabe como as coisas começam mas nem sempre pode adivinhar como elas terminam. Mas a verdade é que, as vezes, a gente também não sabe exatamente como algumas coisas começam.
Com o Valores de Minas foi assim. Éramos alguns, fomos nos encontrando, nos conhecendo, nos reconhecendo uns, no sonho e no entusiasmo dos outros. Quando vi, éramos muitos Marcelos, Carlos, Anas, Samiras e tantos outros que nos demos as mãos para juntos, tecermos cuidado, afeto e esperança.
Todos os anos centenas de jovens da rede pública estadual participam do Programa. Durante um ano eles participam de aulas de teatro, dança, música, circo, artes plásticas. Participam de debates e viagens. No final desse período, criam e apresentam um grande espetáculo totalmente preparado por eles e pelos professores. É o encerramento, o rito de passagem…
O resultado está de pé: milhares de jovens fortalecidos nas suas identidades e nas suas capacidades de fazerem escolhas. De terem escolha.