Amigos chamaram a minha atenção para o fato de eu ter paralisado esse blog de forma abrupta, sem avisar a quem me acompanha que eu ficaria ausente durante um período, em função de novas demandas de trabalho.
A verdade é que uma coisa puxa outra, o tempo vai passando e quando a gente se dá conta, ele passou de verdade. E rápido.
Recebi recentemente esse vídeo. Gostei muito porque ele faz a gente enxergar o que já conhece com novos olhos.
The Miniature Earth Project
De certa forma, faz a nossa realidade ficar ainda mais inverossímil.
E intolerável.
E inaceitável.
Trata-se do “Miniature Earth Project”
Encontrei essa versão com legendas em português feita por Vinícius Costa.
Meu marido gosta de fotografar.
O tempo que eu dedico às palavras, ele oferece à luz e à sombra.
Ele alcança uma outra realidade através da lente.
Eu, cada vez mais preciso dos meus óculos para enxergar as entrelinhas.
Meus olhos estão cansados da repetição.
Os dele ainda adivinham cores.
Essas são algumas das fotos dele.
Ele também faz poesia.
Alguns amigos me enviaram uma mesma sugestão: mostrar algumas das minhas edições de Alice no País das Maravilhas e pedir ao professor Ângelo que mostrasse algumas das de Chapeuzinho Vermelho que ele possui.
Vou falar com ele. Enquanto isso, trago algumas Alices.
Fiquei na dúvida sobre qual critério usar.
Escolhi o do tempo.
Seguem três das edições mais antigas que tenho na minha coleção:
A primeira é uma edição americana de 1949:
Alice’s Adventures in Wonderland and Through the Looking Glass – 1949
A segunda, uma edição francesa de 1953:
Alice au Pays des Merveilles – Edição francesa
A terceira, uma edição brasileira de 1962.
A tradução é de Monteiro Lobato
Alice no País das Maravilhas – Edição brasileira de 1962. Tradução de Monteiro Lobato
MAIS ALICE
Existem vários livros sobre Alice.
Um dos meus preferidos é All Things Alice, de Linda Sunshine, uma coletânea de frases, poemas e comentários sobre o livro e seu autor Lewis Carroll. Por exemplo, você sabia que ele numerava as cartas que escrevia e recebia e que a última teve o número 98.721? Nesse livro você também encontra referências de John Lennon, Borges e outros autores sobre Alice. Vale a pena.
Livro: All Things Alice
Ps: Acabo de receber um e-mail do professor Ângelo. Ele tem “62 Chapeuzinhos Vermelhos em 8 línguas, sem falar em várias versões do folclore antes de Perraul.”
É, as minhas Alices ainda precisam crescer muito…
Quando alguém vem pela primeira vez à minha casa e se interessa pelos meus livros, fico sempre na dúvida da impressão que tantas edições de Alice no País das Maravilhas pode causar no visitante.
Na última sexta-feira passei a me sentir mais confortável com a minha coleção: ouvi do professor Ângelo Machado que ele também é um colecionador… de edições de Chapeuzinho Vermelho!
O professor Ângelo é uma pessoa diferente, das que vale a pena conhecer. Aos 78 anos, é uma figura irradiante. É o que se costuma chamar de um frasista, com grandes tiradas e um excepcional senso de humor.
Professor Ângelo Machado
Ambientalista, presidente da Fundação Biodiversitas, autor de importantes trabalhos científicos, reconhecido mundialmente por descobertas na área de medicina é, também, um renomado entomologista (especialista em insetos) e autor de peças de teatro.
Seu nome foi dado a 27 seres vivos, entre libélulas, borboletas e outros insetos como homenagem de outros cientistas. Escreveu 32 livros infantis e ganhou o premio Jabuti.
E tudo isso em apenas uma vida!
Pensando bem, acho que vou reler Chapeuzinho Vermelho…
O post de hoje só vai fazer sentido para os mais velhos.
Era uma vez um filme chamado Casablanca.
Paul Henreid, Ingrid Bergman e Humphrey Bogart
Foi um dos ícones da minha geração.
Muitos de nós sabíamos de cor os diálogos.
A música do filme “As Time Goes By” foi cantada por diferentes intérpretes e, tenho certeza que, até hoje, toca o – e no – coração de muita gente.
Veja a cena original do filme com a música:
TEXTO
O texto abaixo é de autoria do Luis Fernando Veríssimo e foi publicado na Veja, em 1983 (meu baú é antigo…).
Como tudo que faz sentido, permanece atual.
Você se lembra do filme?
As Time Goes By
Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os americanos bêbados que o Harry’s Bar expulsa. Está com 70 anos, mas não parece ter mais que 69. Os olhos empapuçados são os mesmos, mas o cabelo se foi e a barriga só parou de crescer porque não havia mais lugar atrás do balcão. A princípio ele negou que fosse Rick.
- Não conheço nenhum Rick.
- Está lá fora. Um letreiro enorme. Rick’s Cafe Americain.
- Está? Faz anos que não vou lá fora. O que você quer?
- Um bourbon. E alguma coisa para comer.
Escolhi um sanduíche de uma longa lista e Rick gritou o pedido para um negrão na cozinha. Reconheci o negrão. Era o pianista do café do Rick em Casablanca. Perguntei por que ele não tocava mais piano.
- Sam? Porque só sabia uma música. A clientela não aguentava mais. Ele também faz sempre o mesmo sanduíche. Mas ninguém vem aqui pela comida.
Cantarolei um trecho de As time goes by. Perguntei:
- O que você faria se ela entrasse por aquela porta agora?
- Diria: “Um chazinho, vovó?”. O passado não volta.
- Voltou uma vez. De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em Casablanca, para entrar.
- Não volta mais.
Mas ele olhou, rápido, quando a porta se abriu de repente. Era um americano que vinha pedir-lhe dinheiro para voltar aos Estados Unidos. Estava fugindo de Mitterrand. Rick o ignorou. Perguntou o que eu queria além do bourbon e do sanduíche de Sam, que estava péssimo.
- Sempre quis saber o que aconteceu depois que ela embarcou naquele avião com Victor Laszlo e você e o inspetor Louis se afastaram, desaparecendo no nevoeiro.
- Passei 40 anos no nevoeiro – respondeu ele. Obviamente, não estava disposto a contar muita coisa.
- Eu tenho uma tese.
Ele sorriu:
- Mais uma…
- Você foi o primeiro a se desencantar com as grandes causas. Você era o seu próprio território neutro. Victor Laszlo era o cara engajado. Deve ter morrido cedo e levado alguns outros idealistas com ele, pensando que estavam salvando o mundo para a democracia e os bons sentimentos. Você nunca teve ilusões sobre a humanidade. Era um cínico. Mas também era um romântico. Podia ter-se livrado de Laszlo e ficado com ela, mas preferiu o grande gesto e se igualar a Laszlo aos olhos dela. Por quê?
- Você se lembra do rosto dela naquele instante?
Eu me lembrava. Mesmo através do nevoeiro, eu me lembrava. Ele tinha razão. Por um rosto daqueles, a gente sacrifica até a falta de ideais.
A porta se abriu de novo e nós dois olhamos rápido. Mas era apenas outro bêbado.
MARSELHESA
Dizem que a Marselhesa é o segundo hino de todos os que, um dia, lutaram pela liberdade.
O filme é muito especial e, essa cena, que dispensa explicações, é uma das que eu mais gostava…
Em 2004, Luiz Marcio e eu nos casamos.
A cerimônia foi na fazenda que pertenceu à minha bisavó em Claudio, no interior de Minas Gerais.
Entrei na pequena capela de mãos dadas com a minha filha e ele, com a filha dele.
Foto: Luiz Marcio
Segundos casamentos nunca são apenas entre duas pessoas. Acolhemos também no nosso afeto aqueles que vivem no coração do outro.
A gente se casa e abraça a história do outro.
Escrevi esse texto-oração que li durante a celebração:
Gosto de livrarias.
É um dos lugares em que mais me sinto à vontade.
O estranho é que gosto dos livros mesmo quando não entendo o que eles dizem.
Quando viajo, passo horas entre livros escritos em idiomas que não domino.
Nesses casos, me impressiona a edição. Outras vezes as ilustrações.
Há sempre alguma coisa mágica que vive em todos eles.
Capa do livro: Mulheres que Leem são Perigosas
Esse é um livro que descobri numa livraria na França.
A editora é Flammarion e os autores são Laure Adler e Stefan Bollmann.
A tradução seria: “Mulheres que Leem são Perigosas”.
O autor fez uma viagem através da arte, capturando ao longo do tempo e dos estilos, imagens de mulheres e livros.
Algumas são lindas, vejam:
Vanessa Bell: Mulheres que Leem são Perigosas
Edward Hoper: Mulheres que Leem são Perigosas
Jean-Jacques Henner: Mulheres que Leem são Perigosas
Van Gogh: Mulheres que Leem são Perigosas
Édouard Vuilllard: Mulheres que Leem são Perigosas
Matisse: Mulheres que Leem são Perigosas
Peter Ilsted: Mulheres que Leem são Perigosas
PS: Veja como são as coisas. Acabo de receber de uma amiga a capa do livro na edição em português. O título ficou muito mais bonito!
PS2: Na verdade, o segundo livro que mencionei no PS acima não é a tradução do primeiro (coisas de escrever de madrugada…). Trata-se da continuação do livro mencionado no post que, diga-se de passagem, adorei conhecer!
Versão nacional do livro "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"
Na semana passada, escolhi para ilustrar o meu post sobre a campanha pelo aumento dos royalties do minério, uma imagem do Ziraldo.
Não foi por acaso.
Alguns amigos a gente admira mais do que gosta.
De outros, a gente gosta mais do que admira.
Na minha vida, Ziraldo é um equilibro.
Tenho por ele imenso afeto e enorme admiração.
Respeito a sua obra, o seu talento.
E me impressiono com a intensidade e generosidade com que ele vive.
Memória
Vou contar um pequeno episódio dos muitos que tenho dividido com ele por 30 (socorro!) anos.
De Ziraldo para Andrea Neves
Em 2001, minha filha terminou o pré-primário.
Para comemorar a sua primeira “formatura” organizei um piquenique – ela e eu – no chão da sala do apartamento em que morávamos.
Queria dar de presente a ela uma edição de capa dura do livro Flicts, do Ziraldo.
Não encontrei em lugar nenhum.
Liguei pra ele pra saber onde eu poderia encontrar.
Ele não sabia.
No dia seguinte recebi dele uma coleção de edições do Flicts em diversos idiomas com uma linda mensagem:
“Andrea, como já nao há mais capas duras, vão aí os meus Flicts globetrotter para homenagear a Maria Clara. Que já veio ao mundo com o seu lugar certinho: junto de você. Seu, Ziraldo
Dezembro. 2001″
Em meio a toda a sua agenda ele encontrou tempo para acolher um momento que só tinha significado para mim e para minha filha.