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CASABLANCA

O post de hoje só vai fazer sentido para os mais velhos.

Era uma vez um filme chamado Casablanca.

Foto: Paul Henreid, Ingrid Bergman e Humphrey Bogart

Paul Henreid, Ingrid Bergman e Humphrey Bogart

Foi um dos ícones da minha geração.

Muitos de nós sabíamos de cor os diálogos.
A música do filme “As Time Goes By” foi cantada por diferentes intérpretes e, tenho certeza que, até hoje, toca o – e no – coração de muita gente.

Veja a cena original do filme com a música:

TEXTO

O texto abaixo é de autoria do Luis Fernando Veríssimo e foi publicado na Veja, em 1983 (meu baú é antigo…).
Como tudo que faz sentido, permanece atual.
Você se lembra do filme?

As Time Goes By

Conheci Rick Blaine em Paris, não faz muito. Ele tem uma espelunca perto da Madeleine que pega todos os americanos bêbados que o Harry’s Bar expulsa. Está com 70 anos, mas não parece ter mais que 69. Os olhos empapuçados são os mesmos, mas o cabelo se foi e a barriga só parou de crescer porque não havia mais lugar atrás do balcão. A princípio ele negou que fosse Rick.

- Não conheço nenhum Rick.

- Está lá fora. Um letreiro enorme. Rick’s Cafe Americain.

- Está? Faz anos que não vou lá fora. O que você quer?

- Um bourbon. E alguma coisa para comer.

Escolhi um sanduíche de uma longa lista e Rick gritou o pedido para um negrão na cozinha. Reconheci o negrão. Era o pianista do café do Rick em Casablanca. Perguntei por que ele não tocava mais piano.

- Sam? Porque só sabia uma música. A clientela não aguentava mais. Ele também faz sempre o mesmo sanduíche. Mas ninguém vem aqui pela comida.

Cantarolei um trecho de As time goes by. Perguntei:

- O que você faria se ela entrasse por aquela porta agora?

- Diria: “Um chazinho, vovó?”. O passado não volta.

- Voltou uma vez. De todos os bares do mundo, ela tinha que escolher logo o seu, em Casablanca, para entrar.

- Não volta mais.

Mas ele olhou, rápido, quando a porta se abriu de repente. Era um americano que vinha pedir-lhe dinheiro para voltar aos Estados Unidos. Estava fugindo de Mitterrand. Rick o ignorou. Perguntou o que eu queria além do bourbon e do sanduíche de Sam, que estava péssimo.

- Sempre quis saber o que aconteceu depois que ela embarcou naquele avião com Victor Laszlo e você e o inspetor Louis se afastaram, desaparecendo no nevoeiro.

- Passei 40 anos no nevoeiro – respondeu ele. Obviamente, não estava disposto a contar muita coisa.

- Eu tenho uma tese.

Ele sorriu:

- Mais uma…

- Você foi o primeiro a se desencantar com as grandes causas. Você era o seu próprio território neutro. Victor Laszlo era o cara engajado. Deve ter morrido cedo e levado alguns outros idealistas com ele, pensando que estavam salvando o mundo para a democracia e os bons sentimentos. Você nunca teve ilusões sobre a humanidade. Era um cínico. Mas também era um romântico. Podia ter-se livrado de Laszlo e ficado com ela, mas preferiu o grande gesto e se igualar a Laszlo aos olhos dela. Por quê?

- Você se lembra do rosto dela naquele instante?

Eu me lembrava. Mesmo através do nevoeiro, eu me lembrava. Ele tinha razão. Por um rosto daqueles, a gente sacrifica até a falta de ideais.

A porta se abriu de novo e nós dois olhamos rápido. Mas era apenas outro bêbado.

MARSELHESA

Dizem que a Marselhesa é o segundo hino de todos os que, um dia, lutaram pela liberdade.

O filme é muito especial e, essa cena, que dispensa explicações, é uma das que eu mais gostava…

Casablanca.
Vale a pena ver de novo.

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ZIRALDO

Na semana passada, escolhi para ilustrar o meu post sobre a campanha pelo aumento dos royalties do minério, uma imagem do Ziraldo.
Não foi por acaso.

 

Alguns amigos a gente admira mais do que gosta.
De outros, a gente gosta mais do que admira.
Na minha vida, Ziraldo é um equilibro.
Tenho por ele imenso afeto e enorme admiração.

 

Respeito a sua obra, o seu talento.
E me impressiono com a intensidade e generosidade com que ele vive.

Memória

Vou contar um pequeno episódio dos muitos que tenho dividido com ele por 30 (socorro!) anos.

Recado de Ziraldo para Andrea Neves

De Ziraldo para Andrea Neves

Em 2001, minha filha terminou o pré-primário.
Para comemorar a sua primeira “formatura” organizei um piquenique – ela e eu – no chão da sala do apartamento em que morávamos.
Queria dar de presente a ela uma edição de capa dura do livro Flicts, do Ziraldo.
Não encontrei em lugar nenhum.
Liguei pra ele pra saber onde eu poderia encontrar.
Ele não sabia.
No dia seguinte recebi dele uma coleção de edições do Flicts em diversos idiomas com uma linda mensagem:

“Andrea,
como já nao há mais capas duras, vão aí os meus Flicts globetrotter para homenagear a Maria Clara.
Que já veio ao mundo com o seu lugar certinho: junto de você.
Seu,
Ziraldo
Dezembro. 2001″

Em meio a toda a sua agenda ele encontrou tempo para acolher um momento que só tinha significado para mim e para minha filha.

Delicadeza. Esse também é um traço do Ziraldo.

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TANCREDO E O ENCANTO POSSÍVEL

 

Algumas pessoas sugerem que eu escreva mais sobre a minha história.

Aí vai, então, mais um pedaço dela.

Esse é um artigo que fiz sobre o meu avô e foi publicado na revista Vogue em 1984. Eu tinha 25 anos.

Família Neves: Tancredo, Andrea e Aécio

Tancredo, Andrea e Aécio - 1984, Claudio-MG

Tancredo, o encanto possível

Paulo Mendes Campos dizia, em crônica, já antiga, que os grandes milagres, ao contrário do que pode parecer, não acontecem depressa, mas devagar, muito devagar.

De certa forma é também o que acontece com as “grandes lições” que a vida nos oferece. Na falta de um adjetivo melhor chamo “grandes lições” ao processo de incorporação daqueles princípios éticos básicos, sem os quais o homem perde a sua referência, sua identidade, sua ponte própria com o mundo.

Hoje, a cotidiana violência das manchetes dos jornais nos treina para o silêncio, e o caos em que se encontra a humanidade nos faz beirar o imobilismo: de agentes da nossa própria história corremos o risco de nos transformar em espectadores amedrontados cujo único mérito é o de ainda ter forças para torcer por um final menos infeliz.

E vamos envelhecendo precocemente em cada gesto contido, em cada indignação não mais sentida, em cada lágrima não repartida.

É esse o sentido maior deste texto: através dos olhos, da voz e do coração de primeira neta revelar um pouco do afeto e da ternura que o dia-a-dia insiste em tentar nos fazer esquecer.

No tempo em que vivemos, quando parece ter se tornado normal essa total desorganização de valores, esse cruel ceticismo diante da quase impossibilidade do amanhã, essa cor opaca que trazemos nos olhos, o grande aprendizado que meu avô vem repartindo conosco, vem sendo tecido com calma e emoção ao longo de toda a nossa vida.

A primeira lembrança, a mais remota, é de uma tarde no apartamento de Copacabana. Ele, com infinita paciência, cantava Se Essa Rua Fosse Minha. Eu, excitada pelo fascínio que o ambiente (a biblioteca) me despertava e pela impressão que as ilustrações de A Divina Comédia, que minha curiosidade folheara algumas horas antes, me causara, relutava em conseguir dormir.

Depois, como em todas as manhãs, vieram as estórias (verdade que sempre as mesmas…) e eu seria capaz de jurar que ele se divertia tanto quanto eu com as nuances de voz e expressão que criava para os personagens.

Avanço um pouco no tempo e lá estávamos nós, passeando pelas ruas de São João del Rei. Em cada esquina, uma história; a cada passo, um amigo, um dedo de prosa, um abismo de recordações. Lembro-me, numa dessas ocasiões, do desassossego que me tomou conta, quando, entreouvindo uma dessas conversas, descobri, encantada, que ele também já fora menino, nadara no Olho d’Água e brincara nas torres da Matriz…

Chegou a minha adolescência e com ela a descoberta de uma nova dimensão da sua figura. Agora, as conversas eram verdadeiras aulas de história e a facilidade com que discorria sobre os mais diversos assuntos me ingressou num mundo novo. É até hoje fascinante vê-lo, na descontração do universo familiar, falar com a mesma intimidade sobre os grandes clássicos da literatura universal, sobre alguns aspectos de determinada teoria política ou mesmo comentar a técnica de uma jogadora de basquete. A ecleticidade da sua formação faz com que navegue com segurança e naturalidade sobre as mais diversas áreas do conhecimento humano.

É também nessas ocasiões que melhor se revela a agudez do seu espírito: bem-humorado, domina com maestria o uso da ironia sem jamais chegar ao sarcasmo, ao mesmo tempo em que é capaz de levar um “oponente” ao exaspero sem sequer alterar o tom da voz. São presentes dele alguns dos meus melhores livros e só não foram mais importantes na minha formação do que as dedicatórias que os acompanham.

No espaço de vida real, o avô e o político se confundem revelando o homem na sua dimensão maior. E é esse quem vem nos legando a mais valiosa de todas as heranças: o seu exemplo vivo de coragem, lealdade e serenidade. Coragem que revela ao sustentar as suas posições contra as platéias mais adversas; lealdade quando reserva, mesmo aos adversários, toda a sua atenção e respeito (embora nem sempre receba o mesmo tratamento) e a serenidade que caracteriza os que sabem discernir entre a limitação e o infinito dos fantasmas que povoam as almas humanas.

A sua inteligência já é por demais conhecida e só é superada pela dimensão da sua lucidez. Não aquela lucidez fria, exclusivamente racional, mas aquela outra, a lucidez comovente dos que conseguem não deixar de sonhar. E se algum lampejo de altivez ilumina de quando em vez o seu olhar, ele se deve exclusivamente ao orgulho que devem sentir os homens capazes de viver, e, vivendo, se manterem fieis não só aos compromissos que estabelecem com o mundo exterior, mas principalmente aos que travam consigo mesmos e que se revelam naqueles princípios básicos a que me referia no início do texto.

Por outro lado, a humildade com que se comporta nos vem mostrando desde criança que a vaidade não é a melhor das madrinhas, assim como o aplauso fácil não é o melhor dos troféus. A rigidez do seu caráter, a profunda solidariedade que o liga aos amigos e a fé que ainda consegue ter nos destinos do país são aspectos da sua personalidade que transparecem para todos que partilham do seu convívio.

Se é verdade que a minha infância o quis mais por perto e que a minha adolescência lhe cobrou alguns arroubos, também é verdadeiro o profundo encantamento que sua alma sempre exerceu sobre o meu coração.

O tempo tem a sua medida e foi justamente ela quem foi aos poucos me revelando novas dimensões da sua figura humana. Ainda me lembro que no tempo em que meus pais se dedicavam à tarefa inglória – de resto reservada a todos os pais – de tentar me poupar das dores inevitáveis do crescimento, foi dele a bênção cúmplice e silenciosa que recebi, seja quando deixei o Brasil para descobrir o mundo, seja quando a prática política me levou para caminhos distintos dos seus.

E foram exatamente esse silêncio e essa cumplicidade os elementos utilizados para tecer, ao longo dos anos, o que eu hoje chamaria de nosso “pacto de convivência familiar”, cujo principal objetivo era o de tentar separar o mundo “lá de fora”, o das manchetes dos jornais, do mundo “aqui de dentro”, o da segurança afetiva, revelando aquela que durante muito tempo foi uma das suas maiores preocupações: separar a política da sua vida privada.

Tinha assim a ilusão, acredito eu, de nos preservar de aborrecimentos e preocupações, mal sabendo que cada problema não trazido para casa era ansiosamente adivinhado em cada olhar, cada gesto seu.

Nesse sentido, esse texto é uma pequena traição (pela qual peço desculpas) a essa fantasia que durante tanto tempo orientou a nossa vida familiar, na medida em que cria a inevitável interseção entre esses dois mundos: a interseção da realidade.

Fecho os olhos e o vejo no aniversário de sua irmã cantando Elvira Escuta. No instante seguinte é Natal e sua voz grave ecoa pela sala através dos versos de Noite Feliz. Vou à janela, respiro fundo e penso que apesar de serem poucos os meus anos e muitas as coisas já desacreditadas, algum encanto que ainda não me foi revelado deve existir num mundo capaz de produzir homens como este.

A sua bênção, meu avô.

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FRASES QUE MARCAM A GENTE

 

Se eu fosse uma colecionadora, colecionaria frases. Pequenas e grandes frases. Algumas ditas por acaso, outras passadas de mães pra filhas, de pais pra filhos. Algumas encontradas quase que perdidas em meio a grandes textos…

A verdade é que o jeito de contar, escrever uma história faz toda a diferença…

Algumas histórias são tão especiais que chegam até nós com personagens variados. Quer dizer, a mesma história roda o mundo e se adapta ao personagem local para fazer sentido a um grupo determinado de pessoas.

Tancredo

Me lembro sempre de uma piada, na verdade uma piada melancólica – se é que isso existe – contada na época em que o presidente Tancredo Neves estava internado no hospital:

Escutando uma grande movimentação na rua, embaixo da sua janela, o Presidente pergunta à enfermeira:
- Minha filha, que barulho é esse?
E a enfermeira responde: - É o povo, Presidente, o povo está todo lá embaixo.
– E o que o povo está fazendo aqui?
– Ele veio se despedir, Presidente.
– Ué, e o povo está indo pra onde, minha filha?

Anos depois, na Inglaterra, li essa mesma piada tendo como personagem Churchill.

Churchill

Existem muitas tiradas bem humoradas, irônicas, mas também frases sérias que são atribuídas ao grande líder inglês.
No museu em Londres que leva o seu nome – e vale muito a pena ser visitado – existe um espaço dedicado às suas frases.
Gosto especialmente, até hoje, de uma história bastante conhecida que revela a presença de espírito que teria marcado a personalidade dele. O diálogo tem várias versões: teria ocorrido em uma recepção, no Parlamento…

Contam que, em certa ocasião, Lady Astor se dirigiu a Churchill com arrogância e frieza e disse:
- Se eu fosse sua mulher, colocaria veneno no seu chá…
Ao que ele, com a voz pausada, teria respondido:
- Se a senhora fosse, eu tomaria…

Pôster situado no Churchill War Rooms

Churchill War Rooms

Mas, frase por frase, Churchill será lembrado mesmo pelas que disse durante a Guerra, quando falou aos ingleses para agradecer o desempenho dos pilotos da RAF – Real Força Aérea Britânica:

“Never was so much owed by so much to so few.”
“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos.”.

Ou para manifestar o seu compromisso com a Inglaterra: “Nada tenho a vos oferecer a não ser sangue, suor e lágrimas”.

E você? Gosta de alguma frase em especial?

 

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ARTISTAS SOLIDÁRIOS

 

Gosto de acreditar que existe sempre uma escolha ao alcance de cada um de nós.

Não me refiro às grandes escolhas, àquelas que trazem grandes definições às nossas vidas, mas às pequenas, aparentemente invisíveis, que acabam revelando quem somos: a forma como escolhemos lidar com os amigos, o que escolhemos fazer com o nosso tempo… mas, fundamentalmente, os atributos com que escolhemos viver a nossa vida.

 

SOLIDARIEDADE

Há alguns dias, lançamos um novo projeto do Serviço Voluntário de Assistência Social – Servas: uma coleção de sacolas retornáveis para supermercados.

Dez artistas cederam ao Servas o direito de uso de uma de suas obras. A Associação Mineira de Supermercados – AMIS – produziu e distribuiu as peças em dezenas de pontos de venda. O Servas vai receber R$ 0,30 por cada sacola vendida para apoiar os projetos sociais da entidade.

 

ARTISTAS SOLIDÁRIOS

Conheça os artistas solidários que participaram do projeto: Amilcar de Castro, Fernando Lucchesi, Fernando Pacheco, Fernando Velloso, Jorge dos Anjos, Jorge Fonseca, José Octavio Cavalcanti, Marco Túlio Resende, Thais Helt e Selma Weissman.

Agradeço, mais uma vez, a cada um e à familia Amilcar de Castro, que cedeu uma obra do grande artista para o projeto.

 

Projeto Sacolas de Minas

Sacolas de Minas

 

AS SACOLAS

Marco Túlio Rezende, um dos artistas que participa do projeto, foi feliz ao dizer que essa é uma boa iniciativa, porque tem, ao mesmo tempo, uma vertente social, uma ambiental e outra ainda cultural.

Os trabalhos dos artistas são lindos e tem linguagens diferentes – o que significa que cada um de nós pode encontrar os seus favoritos!

Conheço quem disse que vai emoldurar e colocar em casa!

Veja abaixo o vídeo com as sacolas, conheça os artistas e as intervenções realizadas no lançamento do projeto no Palácio da Liberdade, no shopping Pátio Savassi e no Mercado Central.

 

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BEATLES

 

Eu amava os Beatles e os Rolling Stones.
Mas gostava mais dos Beatles.

E gostava mais do John do que do Paul.
Mais de Londres do que de Nova York.
Mais de montanha do que de mar.
Mais de São João del Rey do que da Bahia.

Mas os Beatles são sempre os Beatles.

Veja essa homenagem prestada ao Paul McCartney.

Na plateia, Obama.
No palco, vários artistas.
No youtube, nós.

Sabe o que me surpreende? A intimidade com que tantas gerações, em tantas partes do mundo cantam as mesmas músicas. E o sentimento de alegria e pertencimento que a gente tem com cada uma delas.

 

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PERDÃO

 

Disseram–me uma vez que cada um de nós deve, em algum momento da vida, se voltar para o passado, tomar pelas mãos a criança que foi um dia e conversar com ela. Literalmente.

 

Andrea Neves quando criança

Andrea Neves criança

 

O que dizer, cada um saberia. Pedir desculpas por não termos chegado
a ser como gostaríamos de ter sido? Tranquilizá-la de que tudo correria bem? Colocá-la no colo, rir das suas bobagens e fazê-la adormecer sobre os seus – nossos – sonhos?

Dizem que a experiência é libertadora. Que, no fundo, tudo o que precisamos é sermos perdoados por nós mesmos.

É difícil saber em que momento deixamos de ser o que poderíamos ter sido e, para melhor ou para pior, nos transformamos no que somos.

É difícil saber que escolhas nos definem e quais nos adiam.

Quem saberá escrever, um dia, a história do que poderia ter sido?

 

PS.: Coincidência?

Já havia escrito esse post quando ganhei de um amigo um livro muito especial: “Fernando Pessoa – uma quase autobiografia” escrito por José Paulo Cavalcanti Filho.

 

Livro de Fernando Pessoa

 

Fiquei surpresa ao ler na contracapa: “Quem escreverá a história do que poderia ter sido?”, se pergunta Fernando Pessoa em “Pecado Original”. Não conhecia esse poema que, cuja primeira parte, graças ao escritor José Paulo, divido com você:

 

PECADO ORIGINAL

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito à mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar

(…)

Álvaro de Campos

 

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TEMPO

 

Uma pessoa muito especial me disse uma vez que a vida é longa, mas passa rápido. Com isso, ele queria dizer que temos, durante a nossa vida, a chance de termos experiências muito diferentes, de sermos muitos e vários, sendo ao mesmo tempo apenas um e o mesmo.

De certa forma, tenho vivido assim.

Vivi o ideal do movimento hippie e, ainda muito jovem, atravessei – quase todo – os Estados Unidos em um ônibus colorido, em que as cadeiras foram substituídas por um piso alto de madeira onde nos embrulhávamos em nossos sacos de dormir e tocávamos violão enquanto viajávamos em direção à Califórnia.

Vivi o sonho da revolução e fui para a Nicarágua ver de perto a Revolução Sandinista. Conheci o Comandante Zero e devo ser uma das poucas brasileiras que ainda sabe de cor o hino da Frente Sandinista de Libertação Nacional.

Vivi a paixão pela literatura e fui salva pelos livros em vários momentos da minha vida.

Foram muitas as Andreas. Todas elas são mães da Andrea que sou hoje.

Penso nisso e me pergunto qual delas sussurra no meu ouvido diante de cada decisão, de cada escolha…

Penso nelas, na mulher em que nos transformamos, e sorrio intimamente ao perceber que elas estão todas vivas.

De alguma forma vivem todas em mim.

 

 

Oração Ao Tempo

Caetano Veloso


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo…
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo…

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo…

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo…

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo…


O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo…
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo…

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo…

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo…

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KONY

 

Nos últimos anos ficou comum escutarmos o quanto a internet está transformando o mundo em que vivemos.

Alguns relatos impressionam. Ver o papel das redes sociais ao furar o bloqueio de informações na “Primavera Árabe”, por exemplo, impressiona.

Mas novas formas de ação estão surgindo e, certamente, muitas outras ainda surgirão.

 

FAMA

Kony 2012

Pôster Kony 2012

 

Existe um documentário denúncia na internet chamado Kony 2012, criado pela ONG Invisible Children e que se tornou o maior viral da internet. O vídeo conta uma historia:

Em Uganda,  há décadas, existe um grupo chefiado por um homem chamado Joseph Kony. Esse grupo sequestra crianças e as transforma em soldados, violenta meninas e mantém milhares de pessoas sob terror.

Há alguns anos o fotógrafo americano Jason Russell visitou o país, teve uma percepção e uma ideia:

Kony só se mantém livre e ameaçador, porque o mundo não conhece suas atrocidades. A sombra o protege.

Russell decidiu então, usar os princípios que regem a nossa sociedade contra a lógica que rege essa mesma sociedade.

Somos uma sociedade que presta atenção naquilo que é famoso? Que se mobiliza em torno da fama? Pois ele decidiu fazer Kony ficar famoso. Transformá-lo em uma celebridade. Não para homenageá-lo, mas para revelá-lo. Expô-lo. Para não permitir que os governos esqueçam que ele existe. Para que o mundo não possa mais ignorá-lo. Para que nós não possamos mais ignorar os milhares de meninos e meninas, homens e mulheres que ele ameaça…

Segundo a Wikipédia, celebridades como Rihanna, Bono Vox, Bill Gates, Mark Zuckerberg apoiaram a causa.

Algumas pessoas questionam aspectos desse Movimento. Dizem que a violência não é monopólio de um único grupo armado e que essa iniciativa poderia estar criando falsos ativistas, pessoas que acreditam que, apenas dando um click, estão ajudando a transformar a sociedade.

Eu acho que vale a pena assistir ao vídeo. Veja o que você acha:

 

 

É verdade que a internet nos torna capazes de ouvir o pedido de socorro que vem de qualquer parte do mundo. Mas são os nossos princípios e os nossos corações que nos fazem capazes de escutar. E agir.

Com ética e tecnologia, o mundo decididamente pode ser outro.

PS. Foi minha filha quem me contou essa história.
Ética, tecnologia e uma nova geração que se importa: o mundo decididamente pode ser outro.

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DIGNA IDADE

 

Quando pequenos, meus irmãos e eu passávamos todas as férias em Cláudio, pequena cidade do interior de Minas, onde nasceu minha avó e onde vivia nossa bisavó.

Muitos tios e primos, muitas cavalgadas, muitos violões em torno de fogueiras. As mesmas músicas, sempre! Uma delas sempre me marcou. Uma moda de viola chamada Couro de Boi que cantamos juntos durante muitos anos.

Tempos depois, já à frente do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), lançamos, em parceria com o Governo do Estado, um programa de valorização da pessoa idosa chamado: Digna Idade. Me veio então a ideia de propor uma campanha publicitária que usasse essa música como tema.

Conversamos com Zezé di Camargo que nos contou que a música também marcara sua vida. Ele gravou o comercial sem cobrar. Algumas entidades de classe e empresas se uniram para viabilizar sua exibição. Soube que a peça foi traduzida para outros idiomas por pessoas que a viram na internet.

É um grito para nos despertar da nossa própria desumanidade.

Você já viu?

Campanha de valorização do idoso – Servas e Governo de Minas

Campanha de valorização do idoso – segunda etapa.

 

 

Veja mais:

Zezé di Camargo no lançamento da Campanha do Idoso – Servas e Governo de Minas

Governador Aécio Neves no lançamento da Campanha do Idoso – Servas e Governo de Minas

 

 

Veja abaixo a letra da música:

 

Couro de Boi

Teddy Vieira / Palmeira


Existe um velho ditado
que é do tempo do zagaio
que diz que um pai cuida de 10 filhos.
Mas 10 filhos nao cuidam de um pai.
Sentindo o peso dos anos
sem poder mais trabalhar,
o velho peão estradeiro,
com seu filho foi morar.

O rapaz era casado
e a mulher deu de implicar.

“Você manda o velho embora,
se não quiser que eu vá”.

E o rapaz, coração duro,
com o velhinho foi falar:

Para o senhor se mudar,
meu pai, eu vim lhe pedir.
Hoje aqui da minha casa
o senhor tem que sair.

Leve este couro de boi
que eu acabei de curtir.
Pra lhe servir de coberta
aonde o senhor dormir.

O pobre velho calado,


pegou o couro e saiu.
Seu neto de oito anos
que aquela cena assistiu.
Correu atrás do avô,
seu paletó sacudiu.
Metade daquele couro,
chorando ele pediu.

O velhinho, comovido,
pra não ver o neto chorando
Partiu o couro no meio
e pro netinho foi dando.

O menino chegou em casa,
seu pai foi lhe perguntando.

Pra quê você quer este couro
que seu avô ia levando?

Disse o menino ao pai:
um dia vou me casar
o senhor vai ficar velho
e comigo vem morar.

Pode ser que aconteça
de nós não se combinar.

E essa metade do couro
vou dar pro senhor levar.