Algumas pessoas sugerem que eu escreva mais sobre a minha história.
Aí vai, então, mais um pedaço dela.
Esse é um artigo que fiz sobre o meu avô e foi publicado na revista Vogue em 1984. Eu tinha 25 anos.
Tancredo, o encanto possível
Paulo Mendes Campos dizia, em crônica, já antiga, que os grandes milagres, ao contrário do que pode parecer, não acontecem depressa, mas devagar, muito devagar.
De certa forma é também o que acontece com as “grandes lições” que a vida nos oferece. Na falta de um adjetivo melhor chamo “grandes lições” ao processo de incorporação daqueles princípios éticos básicos, sem os quais o homem perde a sua referência, sua identidade, sua ponte própria com o mundo.
Hoje, a cotidiana violência das manchetes dos jornais nos treina para o silêncio, e o caos em que se encontra a humanidade nos faz beirar o imobilismo: de agentes da nossa própria história corremos o risco de nos transformar em espectadores amedrontados cujo único mérito é o de ainda ter forças para torcer por um final menos infeliz.
E vamos envelhecendo precocemente em cada gesto contido, em cada indignação não mais sentida, em cada lágrima não repartida.
É esse o sentido maior deste texto: através dos olhos, da voz e do coração de primeira neta revelar um pouco do afeto e da ternura que o dia-a-dia insiste em tentar nos fazer esquecer.
No tempo em que vivemos, quando parece ter se tornado normal essa total desorganização de valores, esse cruel ceticismo diante da quase impossibilidade do amanhã, essa cor opaca que trazemos nos olhos, o grande aprendizado que meu avô vem repartindo conosco, vem sendo tecido com calma e emoção ao longo de toda a nossa vida.
A primeira lembrança, a mais remota, é de uma tarde no apartamento de Copacabana. Ele, com infinita paciência, cantava Se Essa Rua Fosse Minha. Eu, excitada pelo fascínio que o ambiente (a biblioteca) me despertava e pela impressão que as ilustrações de A Divina Comédia, que minha curiosidade folheara algumas horas antes, me causara, relutava em conseguir dormir.
Depois, como em todas as manhãs, vieram as estórias (verdade que sempre as mesmas…) e eu seria capaz de jurar que ele se divertia tanto quanto eu com as nuances de voz e expressão que criava para os personagens.
Avanço um pouco no tempo e lá estávamos nós, passeando pelas ruas de São João del Rei. Em cada esquina, uma história; a cada passo, um amigo, um dedo de prosa, um abismo de recordações. Lembro-me, numa dessas ocasiões, do desassossego que me tomou conta, quando, entreouvindo uma dessas conversas, descobri, encantada, que ele também já fora menino, nadara no Olho d’Água e brincara nas torres da Matriz…
Chegou a minha adolescência e com ela a descoberta de uma nova dimensão da sua figura. Agora, as conversas eram verdadeiras aulas de história e a facilidade com que discorria sobre os mais diversos assuntos me ingressou num mundo novo. É até hoje fascinante vê-lo, na descontração do universo familiar, falar com a mesma intimidade sobre os grandes clássicos da literatura universal, sobre alguns aspectos de determinada teoria política ou mesmo comentar a técnica de uma jogadora de basquete. A ecleticidade da sua formação faz com que navegue com segurança e naturalidade sobre as mais diversas áreas do conhecimento humano.
É também nessas ocasiões que melhor se revela a agudez do seu espírito: bem-humorado, domina com maestria o uso da ironia sem jamais chegar ao sarcasmo, ao mesmo tempo em que é capaz de levar um “oponente” ao exaspero sem sequer alterar o tom da voz. São presentes dele alguns dos meus melhores livros e só não foram mais importantes na minha formação do que as dedicatórias que os acompanham.
No espaço de vida real, o avô e o político se confundem revelando o homem na sua dimensão maior. E é esse quem vem nos legando a mais valiosa de todas as heranças: o seu exemplo vivo de coragem, lealdade e serenidade. Coragem que revela ao sustentar as suas posições contra as platéias mais adversas; lealdade quando reserva, mesmo aos adversários, toda a sua atenção e respeito (embora nem sempre receba o mesmo tratamento) e a serenidade que caracteriza os que sabem discernir entre a limitação e o infinito dos fantasmas que povoam as almas humanas.
A sua inteligência já é por demais conhecida e só é superada pela dimensão da sua lucidez. Não aquela lucidez fria, exclusivamente racional, mas aquela outra, a lucidez comovente dos que conseguem não deixar de sonhar. E se algum lampejo de altivez ilumina de quando em vez o seu olhar, ele se deve exclusivamente ao orgulho que devem sentir os homens capazes de viver, e, vivendo, se manterem fieis não só aos compromissos que estabelecem com o mundo exterior, mas principalmente aos que travam consigo mesmos e que se revelam naqueles princípios básicos a que me referia no início do texto.
Por outro lado, a humildade com que se comporta nos vem mostrando desde criança que a vaidade não é a melhor das madrinhas, assim como o aplauso fácil não é o melhor dos troféus. A rigidez do seu caráter, a profunda solidariedade que o liga aos amigos e a fé que ainda consegue ter nos destinos do país são aspectos da sua personalidade que transparecem para todos que partilham do seu convívio.
Se é verdade que a minha infância o quis mais por perto e que a minha adolescência lhe cobrou alguns arroubos, também é verdadeiro o profundo encantamento que sua alma sempre exerceu sobre o meu coração.
O tempo tem a sua medida e foi justamente ela quem foi aos poucos me revelando novas dimensões da sua figura humana. Ainda me lembro que no tempo em que meus pais se dedicavam à tarefa inglória – de resto reservada a todos os pais – de tentar me poupar das dores inevitáveis do crescimento, foi dele a bênção cúmplice e silenciosa que recebi, seja quando deixei o Brasil para descobrir o mundo, seja quando a prática política me levou para caminhos distintos dos seus.
E foram exatamente esse silêncio e essa cumplicidade os elementos utilizados para tecer, ao longo dos anos, o que eu hoje chamaria de nosso “pacto de convivência familiar”, cujo principal objetivo era o de tentar separar o mundo “lá de fora”, o das manchetes dos jornais, do mundo “aqui de dentro”, o da segurança afetiva, revelando aquela que durante muito tempo foi uma das suas maiores preocupações: separar a política da sua vida privada.
Tinha assim a ilusão, acredito eu, de nos preservar de aborrecimentos e preocupações, mal sabendo que cada problema não trazido para casa era ansiosamente adivinhado em cada olhar, cada gesto seu.
Nesse sentido, esse texto é uma pequena traição (pela qual peço desculpas) a essa fantasia que durante tanto tempo orientou a nossa vida familiar, na medida em que cria a inevitável interseção entre esses dois mundos: a interseção da realidade.
Fecho os olhos e o vejo no aniversário de sua irmã cantando Elvira Escuta. No instante seguinte é Natal e sua voz grave ecoa pela sala através dos versos de Noite Feliz. Vou à janela, respiro fundo e penso que apesar de serem poucos os meus anos e muitas as coisas já desacreditadas, algum encanto que ainda não me foi revelado deve existir num mundo capaz de produzir homens como este.
A sua bênção, meu avô.





Andrea na VOGUE!!! Que mara!!! Parabéns e quando terá outra publicação com vc?
Saudades do Tancredo!
Andrea, me lembro pouco do Tancredo, seu avô, mas todas as referências que eu tenho são boas, por parte de meus pais e meus avós. Minha avó lamenta até hoje sua morte – do jeito que foi. Belíssimo texto. Honesto, de uma neta extremamente próxima de seu avô.
Minha neta me mostrou seu texto.
Que coisa bonita.
Vim aqui so para te dizer que, na epoca, era muito dificil encontrar a Vogue em BH, mesmo eu sendo costureira. Consegui e a li varias vezes seu texto.
Confesso q no papel parecia mais proximo de mim, talvez fosse o contexto.
De todo modo, vc deveria escrever mais sobre seu avo, pois atraves dessas historias te conhecemos mais.
Vc e seu avo de saia.
Que Deus te ilumine e te abencoe.
Olhos cheios de emoção por aqui…
Vc escreve muito bem. Se fosse hj a morte de seu avo, ele viraria um martire. Essa nova geracao precisa saber um pouco mais sobre dr Tancredo.
Incrível seu post Andrea, Tancredo foi um grande advogado, empresário, e um dos grandes nomes da política brasileira.
Seus textos sobre Tancredo só aumentam a admiração que eu tenho por ele, como político e como pessoa. Grande homem!
Este post é ao mesmo tempo poético e instigante. Fico a imaginar as aventuras de descobrir um personagem como Tancredo, ainda tendo-o tão próximo. A admiração que você passa no texto faz jus ao legado deste grande, não só avô, mas também um personagem brasileiro.
O tempo… Ah, o tempo… Só ele nos dá a dimensão exata do tamanho de quem amamos, das forças das relações que construímos, das sementes que espalhamos, da saudade que guardamos, do peso ou da leveza que escolhermos levar pela vida. O tempo que nos lapida e que nos marca a face e os sonhos. Tempo que muda, altera e apaga, mas que não nos atinge na essência. Que você permaneça sempre tão sensível e intensa. A minha admiração e carinho pela autora do texto e pelo personagem dele é coisa que o tempo não altera. Isso não tem medida.
Andrea, que lindo o que voce escreveu sobre seu avo, A lembrança mais vivida que trago dele foi, quando pequena pedi ao meu avo(Eduardo Avila, muiito amigo do Dr. Tancredo) que me apresentasse a ele. Dia e hora marcados, la fomos nos(eu de “vestido de domingo”) e, para minha grata surpresa, aquele homem , figura ilustre e notoria, deu-me atençao carinhosa o que me fez descobrir que a simplicidade dele era muito maior do que a importancia dos cargos que ocupava. Grande homem, grande sanjoanense, exemplo para aqueles que querem uma politica digna para um Brasil melhor! Afetuoso abraço, Bel Avila
Que texto heim.
Muito bom msm. Nem sabia que vc era dessas de aparecer na Vogue.
Eu só sei dizer que me emocionou muito e que acho que de alguma forma voces tinham um mundo particular, sem deixar de partilhar suas idéias e coragem com o mundo. Como esse blog.
E muito bom conhecer mais sobre o Tancredo.
Andrea,
sou blog se tornou uma surpresa. Bela surpresa!!
Vc fala de tudo. Atual, emocionante e se apresenta uma Andrea como ninguém sabe. Como ninguém vê. Como poucos conhecem.
Muito bom seu texto. Como vc deixa isso guardado a tanto tempo? Como vc faz isso???
Para ser sincero, te considerava uma mulher mão ferro, sem coração, sem pudor, que só queria impor sua opinião.
Agora vejo que vc se preocupa fundamentalmente com o outro. Tenho que dar meu braço a torcer.
Obrigado por dividir conosco seus sentimentos, seus momentos.
Isso pertence ao Brasil. Um blog e uma grande mudança em minha opinião… nunca imaginei isso.
Nem precisa publicar meu comentário, mas preciso dividir com vc que até minha esposa fala do seu blog. Ela fala tantooo de um texto seu de 15 anos que nem eu aguento mais.
Faltou dona Risoleta nesta foto.
Tancredo é imortal. Minha vó tem um pôster de uma foto dela com ele na parede do quarto dela. Ela é apaixonada com ele. Foi, e é, um exemplo de ser humano.
Andrea,
Tancredo é uma recordação e um sonho. Espero muito que este sonho ainda se torne realidade. A sangue da família Neves perpetua e ainda merece ter seu legado de maneira nacional. Tancredo foi o melhor presidente que não tivemos. Ou tivemos, na verdade. Tancredo é história, é saudade, é passado, presente e futuro. É Tancredo Neves.
Eu assinava Vogue e tinha esta edição. Tinha todas. Agora estou arrependida de tê-la jogado fora, para ler na versão original.
Que pena.
Andrea,
Não vou me esquecer NUNCA de ver a cena de você saindo do hospital no dia da morte de seu avô. Você chorava muito. Muito! A Globo, ao vivo no Fantástico, noticiou este fato, antes de ser confirmada a morte dele. Neste vídeo mesmo tem o repórter Carlos Nascimento citando este fato, ao vivo: http://www.youtube.com/watch?v=8zMCWKNxbjo
Ele fala de você, rapidamente, aos 16 segundos de vídeo.
Tancredo estará sempre na história.
O discurso proferido pelo secretário da imprensa da República na época, Antônio Britto, é INESQUECÍVEL! Me lembro como se fosse hoje o momento em que ele sentou na sala de imprensa do hospital para dizer todas aquelas coisas.
“Nos últimos 50 anos, a vida pública de Tancredo Neves se confundiu com sonhos e ideiais do brasileiros…” Estas palavras ficam na minha cabeça até hoje, Andrea.
Tancredo foi o encanto possível e impossível para toda a nossa nação.
Eu sei que ele era seu avo, mas tb era nosso. Acho que Tncredo e dos poucos consesos da politica. Escreva mais sobre ele. Diga como ele era na intimidade, que tipo de coisas ele falava, se era rigoroso, o que lia….
Tancredo foi uma pessoa realmente incrível. Nada melhor do que você, Andrea, que teve toda essa ligação com ele para dizer. Acreditava que ele seria o homem que mudaria a nação. DE CERTA FORMA ELEFOI…, mas queria mais. quero mais. tomara que Aécio, teu irmão, possa ser essa pessoa…
Amei tudo! lindo Blog! bjão e super parabens!
Olá Andrea, muito prazer, cheuei até aqui pelo convite de Pedro, que recomendou muito bem o seu site. Ele tinha razão.
Ao ler esse texto, lembrei do meu pai, hj falecido, que admirava demais o Tancredo, e conseguiu me “contaminar” com essa admiração. Senti muito a partida dele, pq tinha esperança de um Brasil melhor.
Parabéns pelo visual do blog, pelos textos, pelo casamento(li a postagem tbm), e pela rica vida que teve e tem entre os livros. Também sou apaixonada por eles!
Bom final de semana, e um abraço carinhoso.
Com imenso prazer Andrea Neves, em formas de palavras com sentimento humano, em simples entendimento de um filho de deus, o conforto de querer me espelhar em amor familiar, venho vossa excelência declarar elogios de um pais melhor, o amor de familia com tradição, índole e historias do passado, de mandatos e mandatos, buscando resgatar uma energia em dimensao nacional, erguido em plena democracia a irmã do futuro e eterno presidente do pais. Como liderança e visando o futuro proprio em relação de equipe, vos digo são palavras que se tornar poemas e vao ficar no espirito de quem tem o prazer de ficar por aki…
Uma gentileza de um jovem, líder, fortes emoções particular venho desabafar ! MEUS PARABÉNS FAMILIA NEVES…forte abraço do Otávio flecha
Com o fascinio que voce ouvia o seu avô, eu leio seus textos, voce escreve com tanta verdade que a gente vivi com voce a emoção das canções, das aulas de tudo que ele fazia e que voce sentia.
Muito bom ler com voce