Na segunda-feira, 23 de janeiro, sete dias após a morte do Bartolomeu, nos reunimos alguns amigos, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.
A ideia era que cada um trouxesse e lesse o seu trecho preferido da obra dele.
“Um minuto com o Bartô” foi o nome que demos ao nosso encontro.
Nos reunimos, lemos uns para os outros, demos as mãos e cantamos juntos. Simbolicamente cada um segurou a luz que iluminou a leitura do outro.
Partilhamos o que tínhamos em comum: o afeto por um homem que foi, ao mesmo tempo, um escritor e um ser humano muito especial.
DESPEDIDA
Perdi um amigo
E, dessa vez, não foi por descuido
Esse era bem guardado, não ficava muito à vista
Nem era do tipo que se exibe pras visitas.
TEMPO
Bartô se foi no amanhecer de uma segunda-feira
E o primeiro sentimento que tive foi o da velocidade me atropelando.
Tudo está acontecendo muito rápido, hoje em dia. Até a morte. Tem se morrido muito rápido. Antigamente, morria-se mais devagar.
Quem leu pelo menos um dos livros dele sabe que Bartô não escrevia, bordava palavras.
Ele era a delicadeza que emprestava ao seu texto.
As palavras dele nasciam grávidas. De significados, de sentimentos. Eram completas, inteiras.
TEMPO DE VOO
Velórios são lugares tristes. Há a perda definitiva de quem se vai, mas há também o contato com outras perdas que, fantasiadas de reencontros, nos envolvem em melancolia. São amigos queridos de outras épocas, outras vidas, que se reveem de forma fugaz, dividem lembranças e marcam, com sinceridade, encontros que nunca vão acontecer.
NO VELÓRIO DO BARTÔ
eu me lembrava
do dia em que ele disse: tenho uma surpresa para você, mas não posso contar agora…
e do outro dia em que ele disse: está demorando, mas espera…
e, finalmente, do dia em que ele ligou e disse: vou passar aí.
E me deu um livro. Tempo de Voo.
Eu abri.
E fiquei muito emocionada.
Ele havia dedicado o livro a mim. O livro é sobre o Tempo, essa entidade que ele sabia, tanto me assombra. O livro é maravilhoso.
Bartô dedicou vários de seus livros a amigos: Nelly, Angela…
Hoje, lamento não ter dito mais a ele como esse gesto explicito de afeto me tocou. Como foi especialmente importante para mim naquele momento da minha vida.
Nós sempre sentimos (sentimos ou sabemos?) que faltou alguma coisa, quando nos despedimos daqueles que amamos: faltou uma última palavra, um abraço, um pedido de desculpas. Faltou ter encontrado mais, ter ajudado mais, ter agradecido mais.
Faltou. Falta. Vai faltar.
Bartô.
PS.: No dia 12 de janeiro inaugurei este espaço. No dia seguinte recebi esse último e-mail do Bartô, que morreu dois dias depois:
Andrea,
visitei seu Blog e gostei muito. Nos faz voltar ao passado e nos leva até os desastres do presente. Vou acompanhá-lo sempre.
Bartolomeu.
Sempre é uma palavra que combina com o Bartô.
Sempre. Pra sempre.
Bartô.





Andrea,
parabéns pela bela homenagem ao nosso querido Bartô O seu texto fez jus a ele. Tão sensível quanto.Um abraço,
Beatriz Lemos de Sá
Que texto lindo… me emocionei. Lembrei muito da minha mãe. Saudades boas. Seu blog faz bem pra alma.
Ficou lindo,tenho que aprender suportar as dores, não estou me reconhecendo mais só dores,tristezas,perdas,danos, ainda levanto.bjos Va sempre em frente…
Nós seres humanos quando encara a realidade do destino certo, nos enchemos de egoismo, mas não o egoismo ruim e sim a vontade de permanecer se possível com a presença daquele que amamos e convivemos intensamente. Mas a separação nos ensina e faz com que tenhamos um pouco daquele que parte dentro de nós, para que nunca tenhamos o medo de esquecer com o cotidiano da vida e continuar sempre a pratica do bem de quem nos deixa.
E é assim que um cara como Bartolomeu continua a bordar as nossas vidas com palavras… foi isso que eles nos ensinou e continua a ensinar, sempre…
Viva Bartô!
Oi Andrea, gostei tanto de sua homenagem ao Bartolomeu. Tão delicada e sincera que, tenho certeza, ela teria adorado.
Também faço parte do grupo pequeno e orgulhoso de ter sido homenageada com um livro. É uma emoção muito peculiar. Um presente afetuoso e definitivamente inesquecível. Assim como ele.
Estou lendo Vermelho Amargo de Bartolomeu. Parece que ele conseguia traduzir a língua da alma. Eu não apenas leio. Eu sinto.
Que bonito vc fazer esta homenagem a ele.
Gostaria de ter sido uma das pessoas para as quais ele dedicou um livro.
Parabéns pelo blog.
Está muito especial. De verdade!
Andrea,
Bela homenagem q/ vcs fizeram para o nosso querido AMIGO Bartô: ao mesmo tempo simples e GRANDIOSA, resumindo muito bem a ESSÊNCIA de pessoa tão singular. Bartolomeu sempre me dizia da profunda admiração q/ ele nutria por você como profissional mas, o que mais o encantava, eram as suas qualidades como SER HUMANO. Parabéns a você, a Nelly e a todos q/ colaboraram c/ tão emocionante e merecida homenagem. Foi um “presente” para todos nós.
Abs
Ricardo Pimenta.
P.S: me “adorei” no vídeo. Brad Pitt que se cuide.
Parabéns pelo blog e por nos deixar viver estes momentos que são tão seus, não conheci o Bartô pessoalmente, mas suas obras fantásticas tive a oportunidade.
Me marcou muito quando você diz, “Nós sempre sentimos (sentimos ou sabemos?) que faltou alguma coisa, quando nos despedimos daqueles que amamos”.
Perdi meu pai quando eu tinha apenas 9 anos e apesar da idade, quanta coisa deixei pra trás.
Fiquei muito tocada pela homenagem que vocês fizeram ao nosso tão querido Bartolomeu. Também lamentei não ser participante deste grupo… Bartolomeu foi importante em minha vida. Foi através de oficinas feitas com ele quando ainda era jovem e professora da Escola Santo Tomás de Aquino, que pude fazer contato com a poesia que mora em minha alma. Bartolomeu era assim, conseguia fazer despertar em cada um a beleza das palavras, nos poemas, nos textos, na alma… Agradeço pela publicação do vídeo. Penso que só pessoas sensíveis como ele são capazes de fazer uma homenagem tão significativa.
Receba o meu abraço.
Maria Elvira Amaral
Andrea, minha mãe adorava sua avó. Ela dizia que dona Risoleta era uma mulher fibra. Quando vi a homenagem que vcs fizeram para o Bartolomeu, meu coração se encheu de saudades de minha mãe. Li tanto o Bartolomeu quando ela morreu que tenho seus textos memorizados até hoje.
Bela homenagem. Feliz do homem que tem amigos tão sinceros, capaz de expressar seu amor até mesmo após a morte.
Fique com Deus.